Aprendam, crianças. Eu, como bom publicitário e marketeiro que sou, não podia deixar passar a grande oportunidade que se avizinhava com essa relevante onda de protestos tuiteiros acontecendo mundo afora. Portanto, adiantando-me, resolvi não esperar o próximo hype e já fiz avatares de protesto personalizados para todas as possibilidades. É só pegar o seu e colocar no seu twitter e você estará fazendo a sua parte na luta contra o mal e ajudando o planeta. E claro, tendo sugestões é só me mandar.
“Bob Marley morreu
Porque além de negro era judeu
Michael Jackson ainda resiste
Porque além de branco ficou triste”
Há pouco mais de 24 horas a letra deste samba de Gilberto Gil tornou-se anacrônica. Michael Jackson morreu, depois de exatos 25 anos e meio, a sua segunda morte. A primeira aconteceu durante a gravação de um comercial para a PEPSI, em 27 de janeiro de 1984. Naquele dia, o já chamado “Rei do Pop”, que cavalgava marcas históricas de vendas de seu álbum Thriller (1982), sofreu um acidente com fogos de artifício que lhe causaram queimaduras de segundo grau na cabeça. Foi a partir deste dia que aquele fenomenal menino da Motown e aquele fantástico jovem de penteado molhado e dança insinuante deixaram de existir.
O resto da história todos conhecem. Três anos depois, na capa do álbum “Bad”, surgia outro Michael Jackson. Começava então a saga pública e trágica da monstruosidade psicológica que suplantou a genialidade humana de Michael. O músico havia se tornado uma hipérbole de seu próprio tempo, um zeitgeist elevado a potências absurdas. Enquanto a música abandonava Jacko lentamente por cada um de seus poros alvos, o mundo tomava conhecimento de até onde podia chegar a rejeição de uma pessoa a sua história, à sua imagem, ao seu corpo e ao mundo em que vivia.
A integridade física de Michael, nesses 25 anos, foi esgarçada aos mais alucinantes limites. Sua fortuna, em que pese a enorme quantidade de caridade que ele realizou, passando pela traição de tirar de um parceiro e amigo o direito a suas próprias – e valiosíssimas – músicas, foi dilapidada ao ponto da falência. E sua insolência infantil diante da lei e da moral em justamente um dos mais sensíveis pontos legais e morais da sociedade – a pedofilia – dão a mostra de quão imensurável era sua tragédia pessoal. Junte se a isso – e aqui, os meus leitores psicólogos podem me desmentir ou não – a impossibilidade provável de enxergar-se no espelho. Michael Jackson, o menino negro, reprimido e abusado pelo pai e depois o gênio dos passos impossíveis de dança de Billie Jean e Beat It, ambos estavam mortos, não existiam mais de fato, eram só fotos e pesadelos. E no lugar deles, havia um rosto bizarro, deformado, medonho.
Michael Jackson, em várias entrevistas, disse que tudo o que queria era ser amado. Não o amor dos fãs, vilipendiado em anos e anos de trabalhos ruins, mas um amor físico que – e isso é uma ilação pessoal minha – não era possível obter com uma pessoa da mesma idade, pelo namoro ou pelo sexo. Jacko tinha uma imagem abominável, mas podia comprar o que quisesse. Sem poder ter o calor proibido de quaisquer crianças junto a seu corpo, comprou filhos legítimos, aos quais eu acredito que ele amou profundamente nas noites em que pode dormir abraçado com eles.
E é aqui que o que restava de Jackson se quebra e flui mansamente através de algum dos vasos finos de seu coração apenas cinquentão. Jackson talvez tenha morrido como uma criança, ou como o Peter Pan que imaginava ser, no mundo perfeito e sem espelhos que tentou, infrutiferamente, criar para si. A notícia de sua morte me entristece, muito. Não pelo fim de sua música que é eterna e imortal, nem pelo descanso que seu corpo mutilado e revolvido por bisturis pedia há muito; tampouco pelo fim do arquétipo mor de uma era da história marcada pelo artificialismo, pela rejeição à imperfeição, pela busca de padrões absurdos de imagem e beleza. Minha tristeza é pensar naquele menino e naquele jovem aprisionados no corpo e na alma enlouquecidos e deteriorados do Michael branco, deformado e desesperado. Foram vinte e cinco anos e tudo o que se podia ver deles – tantas vezes por trás das máscaras, dessas mesmas máscaras hospitalares que, triste ironia, voltaram à moda este ano – era a dor funda de seus olhos. Estes nunca mudaram, desde sempre.
Rest in peace, Michael. You deserve this.
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Dias quentes na blogosfera, na twittosfera, na política, nos esportes, em tudo. E eu sinceramente acho tudo um porre. Acho que descobri o que sou, afinal: um cínico.
Por exemplo, eu acompanho a questão das eleições no Irã. Mas sinceramente, isso pouco se-me-dá. Fazer o quê? Tem gente morrendo lá? tem. E tem gente morrendo na China, morrendo na África, morrendo no sertão do Piauí – aquele lugar onde, assim como em SC, tem enchente, mas os blogueiros não ligam – e tem gente morrendo no trânsito porque continua bebendo e dirigindo. Com tudo isso acontecendo e eu vou pensar só no Irã por quê? só pra entrar no HYPE?
Ou seja, eu acho esses avatarezinhos verdes um negócio patético. Fazer o quê se eu penso que qualquer ação de internautas contra o que quer que seja, da queda do diploma à queda dos Aiatolás, não resiste a um “tá, e daí”?
Você, leitor do Pirão, é daqueles que tem vergonha do presidente porque ele fala errado? Lamento, mas eu tenho vergonha de você. O presidente tem seis anos e meio de governo, já aconteceu de um tudo nesse tempo, de coisas ótimas a escândalos homéricos e você, caro leitor, ainda está apegado a esse detalhe, ignorando inclusive que isso não muda em NADA o sentido de competência ou incompetência do presidente em relação à sua comunicação? Quer dizer que sua noção do que acontece no mundo é esta idéia rasa e grosseiramente preconceituosa de que alguém que fala SEJE ou TEJE não tem condições de representar este país de forma honrosa e digna? Será então, leitor, que você também terá vergonha do presidente porque ele é paraíba, ou porque ele é aleijado? ou de Pelé, porque ele é preto, ou de Kaká porque ele é crente? Lamento, querido leitor que discorda de mim nesse caso específico, mas eu tenho vergonha de ser lido por você.
A propósito, leitor que tem vergonha do presidente que fala errado, saiba que o ex-presidente Sarney fala um português belíssimo, perfeito, digno da Academia de Letras. Orgulhem-se dele então. Vocês merecem.
São Paulo, Vasco, Fortaleza… má fase dos meus times em alta. Sobram o inconsistente Grêmio e o desacreditado Atlético-MG para torcer.
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E pelas beiradas, Dunga vai comendo. Que ele saiba aproveitar, que o Brasil só ganha copas mesmo em lugares exóticos para o futebol, ou não é? Suécia, Chile, México, EUA e Coréia/Japão. Ganhar na Itália, na Alemanha, na Inglaterra, aí é duro…
Joel Santana falando inglês é engraçado sim, confesso. Fazer piadas sobre Joel Santana falando inglês é triste, deprimente, patético, coisa de gente de mau caráter. Rir das dificuldades alheias é pior ainda que fazer piada de acidente de avião. É baixo.
Sábado passado, o Escudinhos fez um ano de vida. Quase uma cartela por dia e uma média de visitas diárias que o Pirão jamais teve. Viva ele.
E é isso. Irritação, mau humor, descrença nas pessoas, neuroses multiplas. Me espere, meu cantinho de mato, tenha paciência. Um dia eu chego aí.
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Acordar na hora que der vontade. Passar longos minutos a espreguiçar e revolver-se nas cobertas como gatos preguiçosos. Tomar um banho quente e revigorante. De chinelos e roupas largas, ir à padaria e tomar o café da manhã, com toda a calma. Voltar para casa, aboletar-se na rede, pegar o livro já marcado. Ler até esquecer do almoço. Cochilar mais um pouco. Acordar com fome e revirar a cozinha em busca de coisas simples e fáceis e quem sabe até um vinho doce daqueles que dá vergonha de oferecer aos amigos, mas que nos faz ficar leves e risonhos. Lembrar que não há ninguém nos esperando em canto nenhum para fazer coisa alguma e sentir o prazer esguichar pelas veias. Mais um banho, tépido e perfumao. Arrumar-se com zelo para encontrar o fim da tarde na rua, trocar cumprimentos, gastar conversa a tôa, ver gente, pensar nos amigos, fazer novos em lugares distantes, imaginários ou não. Construir rotinas novas e efêmeras em viagens, espantar-se com as diferenças, estranhar as semelhanças, rir feito bobo, chorar baixinho e só nos cantos escuros da memória. Perambular pelas redes do mundo, que ainda somos pessoas, terráqueos, gente, distribuir “ois”, matar saudades, mentir sobre o bom da vida, esconder os problemas, brigar com quem nos faz isso. E bem mais tarde, terminar tudo com alguma coisa doce e fumegante em xícaras com cara de casa de avó, retomar o livro até que ele pouse tranquilo em nosso peito, buscar a mão do outro, o braço do outro e deixar que o sono nos leve flutuando até nossa próxima vontade e aí então, começar de novo, outra vez, todos os dias, para sempre.
(Nota: acabei escrevendo, mas no fundo o que eu queria era requentar esta velha crônica aqui. Fiquem com as duas, então.)
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Preconceito contra homossexuais é um negócio que me dá um nó na garganta. Ler posts como este aqui do Idelber (*) e este outro da Cora - que são pessoas diametralmente opostas em termos políticos – é de dar aperto no coração.
O Idelber sugere que as pessoas, antes de achar que entendem tudo sobre o caso, procurem conhecer a vida e os problemas dos conhecidos que são homossexuais. Nem preciso ir longe. Tenho gays e lésbicas na minha família. Sei o que passam, me orgulho deles quando tem coragem e os entendo quando se mostram covardes, incapazes de superar as adversidades. Não os culpo, não os julgo.
Ao escolher esse lado da batalha, ainda mais sendo católico, eu sabia que também passaria pelos crivos dos que aí estão, julgando e condenando com a facilidade de quem toma um cafezinho. Ocorre sempre. Uma das frases que mais escuto quando resolvo defender os direitos (em amplo espectro, ok?) dos homossexuais é a seguinte: – Mas você gostaria que seu filho ou sua filha fosse um homossexual? Você se sentiria bem?
A resposta é óbvia. Com franqueza? não. Não gostaria que fossem nem me sentiria bem. Mas sabem por que? porque eu sei como essas pessoas sofrem. Ver meus filhos beijando ou casando com iguais não me causaria nenhum problema. Meu problema seria dormir de noite, preocupado com eles, sabendo que eles vivem num mundo que não os aceita. Porque não entra na minha cabeça como é que um PAI e uma MÃE (vejam, não estou falando de direitistas ou religiosos ou qual quer que seja o caso, mas da relação familiar, parental, sangüínea…) podem afastar de um abraço, de um carinho e do conforto de sua presença um filho por que ele resolveu ser gay assumiu sua homossexualidade. Quanto mais eu penso nisso, mais eu me convenço de que, se acontecesse com meus filhos, eu seria o maior e mais determinado escudo na defesa deles. E não aceitaria jamais perder um minuto da presença deles na minha vida e nos meus braços por qualquer motivo.
Mas tem pais e mães que matam seus filhos por isso. Por vezes só internamente, mas em muitos lugares, com pau, pedra e tiro.
Por essas e outras, ainda que os rótulos de cristão, religioso, supersticioso ou o escambau me doam nas costas nessa hora, eu não tiro uma vírgula de razão dos que defendem, com unhas e dentes e mesmo exagero, os direitos de quem nessa vida, só tem o desejo de querer amar em paz.
PS: Na última terça-feira, o caderno de adolescentes do Jornal O Globo, o MEGAZINE, teve como matéria de capa uma reportagem sobre o Leskut, comunidade social da Internet que se define como “o ponto de encontro para meninas que gostam de meninas”. Estou louco para ver as cartas dos leitores da semana que vem. Deve vir cheia de marimbondos de fogo. Já na edição de hoje, o colunista Joaquim Ferreira dos Santos nos dá conta de que uma proposta do programa Rio sem Homofobia foi prontamente aceita pela Secretária de Estado de Educação Tereza Porto: a partir do dia 28 deste mês, todos os travestis e transgêneros matriculados em escolas da rede pública de ensino deverão ser chamados pelos seus nomes sociais, ou seja: pelos nomes que representam sua identidade feminina. Isto vale também para todos os documentos escolares, como lista de presença, carteiras e agenda. Estes alunos também poderão usar uniformes femininos se assim quiserem. É uma atitude aparentemente pequena do estado que certamente trará um grande impacto em benefício aos envolvidos. Que diferença da política pública (sic) para homossexuais do governo anterior, o do homofobiquérrimo casal diminutivo.
(*) Professor, vai com calma quando for me desconstruir hoje a noite na Cobal. Eu nem beber posso…:-)
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Ando cansado de escrever textos longos. A cada dia mais inspirado pela encantadora síntese proposta pelo Twitter, eu me comprazo em tirar dos meus textos tudo que é supérfluo, à exceção, é óbvio, do rebuscamento barroco que me é característico. Mas deixando pra lá o nariz-de-cera – esta figura estética ressuscitada pelos blogs – voltemos ao assunto: o cansaço.
Historicamente, eu deveria ser um sujeito que abominasse a alienação. Metade da minha adolescência se deu ainda sob a ditadura. Eu deveria viver numa constante luta contra quem se aliena, porque essas pessoas não deveriam ter direito de deitar suas cabeças nos travesseiros e viver em paz sobre o sangue dos que não prevaricaram de suas idéias e ideais. Só que hoje, eu olho em volta e percebo que meus heróis não são os que morreram de overdose e de fom, de bala ou vício por aí. Na verdade, não há heróis. Há pobres pessoas lutando contra moinhos de vento imaginários ou reais e moinhos em ruínas lutando para se manter em pé. Não importa. É uma luta patética.
Nessas últimas semanas eu presenciei esquerdistas e direitistas se digladiando feito moleques remelentos, atirando uns nos outros as mortes causadas há calendas pelos comandantes fascistas e comunistas; vejo esses mesmos companheiros, quando estão entediados, atirar na cabeça dos cristãos as mortes causadas em calendas ainda mais antigas pelos Inquisidores de batinas negras. Vejo os companheiros lutadores atuando, agindo e discursando virulentamente contra coisas – a liberdade, por exemplo – que defendem com a mesma virulência em textos seguintes. Ou anteriores, tanto faz. A raiva pela raiva, a briga pela briga, a beligerância antes de tudo, de um jeito e de uma forma que acaba tornando essas pessoas, quando elas conseguem um vislumbre de humor ou de carinho em suas cruzadas, apenas um arremedo digno somente de profunda desconfiança.
O pior é que eu já quis ser assim. Confesso que me arrependo profundamente. Hoje, minha vontade é ir embora para as montanhas ou para a praia – se der para ser as duas coisas juntas, melhor – para ter uma casinha branca de varanda e cultivar tinhorões falantes e ouvir o canto do urubu-rei e tomar pinga com mel de abelha da bunda vermelha.
Queria viver mesmo longe das notícias. Longe dessas discussões inúteis sobre quem matou mais, se Mao Tse Tung, Torquemada ou Mussolini; sobre quem é mais feliz, os cubanos que não podem tomar sorvete ou os miseráveis novaiorquinos aquecendo-se em suas latas; sobre quem está mais certo, se a grande petroleira mega-poluidora ou o jornal que lhe denuncia os abusos; sobre quem merece mais respeito, se o presidente do estado islâmico que executa homossexuais ou se os gays que denunciam suas visitas e assim agem contra a mesma pluralidade pela qual se supõe que lutem; sobre se a liberdade de culto deve ser combatida ou se os supersticiosos do mundo tem, como qualquer um, direito à sua superstição.
Hoje, com a rede rodeando nossas vidas, uma nova forma de dominação se levanta: o domínio pelo excesso de informação. Antes, a informação era guardada, cerceada, controlada, manipulada. Hoje, é só deixar que ela circule livre por aí. Pouco importa. Quem tem a credibilidade suficiente para proclamar “A Verdade”? Quem é confiável? Qual é A Verdade? O quê, nesse mar de conteúdo, pode ser considerado fidedigno?
Por isso, hoje, eu prego a alienação ao invés de combatê-la. Quem queria a verdade foi derrotado. Porque a verdade está aí mas há milhares de verdades e não dá para saber qual é a mais verdadeira. E tentar achá-las nas discussões inóquas dos que lutam para estabelecê-la a qualquer custo é apenas entrar no território infernal dos intolerantes de toda espécie. E como dizia João Gilberto, “não adianta, eles são muitos”.
Que se matem de brigar. Acabarão isolados em seus feudos cercados de regras, normas e muros altos. Eu vou atrás do meu, que espero, tenha horizonte, brisa e passarinhos.
(Nota – Eis aqui uma verdade pra vocês: eu não tenho um feladaputa de um amigo que me escreva em PVT para me avisar que eu escrevi “RESUSSITAR” errado. Vocês são lindos.)
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[Emmanuel Chaunu, cartunista francês.]
Esta charge genial que eu chupei descaradamente do blog da minha amiga, a Agente 54, demonstra assim, por a+b, o que foi uma recente desistência de sonho pela qual eu passei. É que eu, jovem senhor beirando os 40, ainda tinha um desejo romântico de sar aula, de ensinar, de lecionar, de levar o parco conhecimento que tenho ou viria a ainda ter aos despossuídos de experiência que acreditassem que de alguma forma isso poderia lhe ser útil em suas vidas. Bem, parafraseando o Franciel, hoje em dia eu prefiro um copo de cajuína contaminada com césio, obrigado. Deve ser um jeito menos desesperador de viver e bem mais simples de morrer. Esta notícia aqui é apenas uma num mar de ocorrências que tem chegado a mim, vindas inclusive dos colégios onde estudam meus filhos, onde, por exemplo, o pai de um aluno recém chegado de uma excursão pelo México, ameaçou com a polícia, os pais dos seus colegas de classe que foram ao colégio retirar suas crianças da aula por medo de um possível contágio com a gripe suína. Alegava que os outros pais estavam constrangendo seu filho e que ele tinha o direito de fazer com que ele entrasse a qualquer custo na escola porque ele estava pagando. A escola, pusilanimemente, deu de ombros e deixou que os pais, que são brancos, ricos e bem nascidos, se entendessem.
Foi aí que eu entendi que a ter uma vida dessa, melhor era eu sonhar em me alistar na PM. Menos arriscoso.
Pelo menos eu não tinha começado nada neste sentido ainda. Pior é estar – como estou agora – desistindo de coisas com as quais eu sonho e trabalho há muitos anos. Eu, que em meus áureos tempos já cheguei a operar multitracks cheios de plugins no computador, entre condenser mics, phantom powers, patch bays, faders, e pro tools e tantas coisas mais de estúdios reais e virtuais, dia desses quase chutei minhas guitarras longe por não conseguir mais um ajuste que prestasse em um chorus miserável. Já tinha desistido do eletrônico. Aos poucos eu começo a deixar também o que é elétrico. E imagino que, qualquer hora, feito um Egberto Gismonti qualquer, eu começarei a encordoar meus violões com linha de pesca. E por aí vai.
Desistir é sensação dolorosa, às vezes. Ruim mesmo. Mas é salutar, creio. Revolver a água e esvaziar as xícaras é necessário de vez em quando.
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Há exatos sete anos era assassinado – em serviço, em uma favela da zona norte do Rio de Janeiro – o jornalista carioca Tim Lopes. Sim todo mundo lembra. De lá para cá, a temática ampliou-se um pouco. Deixou de ser a morte dos jornalistas e passou a ser a morte do jornalismo. Para quem apregoa – como eu, por exemplo – que o jornalismo e a grande imprensa estão em meio a um inexorável – se longo ou curto não dá para dizer ainda – processo de extinção, uma coisa, nisso tudo, é certo: ainda não ouvi falar de um player da nova imprensa (ou novo jornalismo, ou nova mídia, não importa…) que tenha entregue voluntariamente a vida por uma notícia ou matéria. Quem tiver visto ou sabido, pode me desmentir. A nova mídia, smj, ainda é em sua quase totalidade, coisa de diletantes.
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E depois de longo e tenebroso outono-inverno, volta o Pirão Drops. E começamos com o futebol, claro. Apesar das atividades do Escudinhos estarem meio paradas por conta de problemas informáticos alheios à minha vontade, continuo acompanhando o que posso. E acompanharia mais se não fosse arriscoso. Por exemplo, eu estive a um trisco de ir assistir Vasco x Corinthians no Maracanã amanhã. Mas as filas estão impraticáveis. De qualquer modo, comigo ou sem migo, a arrancada do Vasco está empolgante.
O mesmo não posso dizer do meu Leão, que garrou a lanterna da série B e não parece disposto a largar…
Ainda sobre o Vasco. É claro que eu espero que meu filhote – que é botafoguense – nunca precise aprender nada na vida com algum publicitário, tirando eu, é claro. Mas para levantar um time que, por tantos anos teve vergonha de si mesmo, nada como um arejado e apaixonado mega-profissional do ramo, como Fábio Fernandes, da F-Nazca. Ele tem idéias ótimas e já começou bem, sem falar que ele odeia o Nizan Guanaes – publicitário baiano, sem caráter e chiliquento, como um certo blogueiro famoso dessas terras. Só por isso, e por ter defenestrado a Champs, fabricante desse pano de chão horrendo que o Vasco tem vestido nos últimos meses, já tem todo o meu apoio.
E a venda do Obina pro Palmeiras? achei fantástico, morri de rir! Ainda mais sabendo – como me informou a @luninha – que uma patética cláusula contratual cobra um milhão de torresmos do Porco se ele escalar o impetuoso atacante baiano contra o Flamengo. Imaginem agora se o verdão vai gastar uma mariola que seja. Claro que não. Mas a relação dos rubro-negros com Obina explica muita coisa sobre o que é ser rubro-negro e principalmente, sobre o que é ser carioca. Não há razão que resista a tamanha irreverência (aka insolência, aka arrogância).
FLIP? é, mais uma vez tô fora… em compensação, tô com o lombo coçando pra ir neste festival aqui. Alguma coisa me diz que vai ser imperdível.
É verdade que Adam Lambert, aquele candidato do American Idol que só perdeu o título porque era gay foi convidado a ser o novo vocalista do Queen? well… nesse caso, se isso se concretizar, só me resta dizer um grande “CHUPA” aos homofóbicos do mundo. Toda a sorte e todo o sucesso para ele.
Quem me lê aqui no Pirão sabe que eu nunca fui um defensor do sistema de cotas para estudantes negros, indígenas, egressos de escolas públicas e filhos de policiais e bombeiros. Contudo, até onde imagino que deva chegar o meu bom senso e o meu caráter, eu nunca lutei contra esta lei que, apesar de essencialmente equivocada quanto à forma de sua realização, traz benefícios para uma parcela da população que precisa de apoio, precisa de ajuda, precisa de compensação sim. No máximo, eu pedia uma discussão sobre as formas de realizar essa compensação, por entender que muito mais pessoas necessitavam dela e que a questão da baixa qualidade da educação no país precisava de uma ação menos paternalista e mais estruturalista. Pois bem. Hoje eu li no jornal que uma liminar contra o sistema de cotas foi impetrada pelo deputado Flávio Bolsonaro (PP-RJ) e que o sistema, até que seja julgado o mérito da questão pelo TJ, está suspenso.
Aí muda tudo. Tudo. Neste momento, o sistema de cotas acaba de ganhar um defensor. Primeiro, porque quem entrou com a liminar é um representante notoriamente conhecido por suas idéias fascistas. Como se não bastasse, o pedido de liminar foi feito em um momento tal que, com certeza, vai atravancar os vestibulares do meio do ano das universidades atingidas, porque não haverá tempo hábil para o julgamento. Ou seja: de plena má fé. Claro, não dá pra esperar outra coisa dos Bolsonaros. Isso posto, me resta lamentar pelos atingidos e torcer para que a justiça prevaleça, a justiça dos que necessitam e não a justiça da canalha rica, branca e covarde.
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Poucas horas de um dia e a quantidade de notícias que eu preferia não ter tido conhecimento que me chegaram é esdrúxula. Em bom português, unbearable.
E ainda não é nada sobre mim, ou sobre minha família, ou sobre meus amigos, ou qualquer coisa que vá mudar em meio metro minha rotina. Como explicar, contudo, que é sobre nada e ao mesmo tempo sobre tudo?
E porque eu tenho que saber essas coisas?
Que vontade, Cristo, de fugir. De ir embora. De me esconder onde ninguém me conheça, onde as notícias cheguem aos poucos, onde as preocupações sejam inúteis, onde a miséria dessa vida sem sentido e sem futuro pese menos.
Mas não se pode impingir isso a quem se ama.
Minha alma hoje pesa mais que meu peso, pesa mais que o mundo, pesa mais do que chumbo.
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