NUNCA ANTES NA MINHA VIDA
Posted Quinta-feira, Maio 15, 2008 by VPCategories: crônicas
Tenho 37 anos. Não é muito, mas é o suficiente para que eu tenha histórias o bastante para preencher umas duas horas num bar tomando birita com os amigos, se necessário. Histórias tristes, engraçadas, felizes. Momentos inesquecíveis, muitos e eu tenho boa memória. Já fiz dois gols num jogo de futebol. Já beijei a menina bonita num joguinho de pera-uva-maçã-salada mista, já ganhei concurso de música, já fui vice num de poesia e um dos melhores num de contos. Já passei manhãs maravilhosas encarapitado em árvores, tardes escaldando na piscina, já vi cobra solta no mato, andei de bicicleta no sertão, andei de jangada, pilotei avião, comi lagosta no abacaxi, passeei de limusine, fiz um solo perfeito de guitarra, cantei em uma serenata, ganhei um beijo roubado, passei noites em claro com pessoas que amo, dei dois, usei loló, tomei vinho caro e cachaça vagabunda, dancei valsa, trabalhei de terno, conheci ídolos, me fingi de cego para viajar de graça no ônibus, viajei no Electra da ponte aérea, voei de ultra-leve, fiz retiro, conheci cachoeiras, brinquei na Disney, fiquei com mulheres mais velhas, me apaixonei por meninas mais novas, comi pão de queijo em Ouro Preto, pequi em Goiânia, tambaqui em Manaus e camarão no Germano de São Luiz. Passei dias no hotel mais caro do país, fiz um filho numa pousada vagabunda, tive brinquedos caros, fiz brinquedos com minhas próprias mãos, aprendi a trocar cordas de violão e a trocar pneu de carro, a fazer crepe com calda de chocolate, a escolher tomate na feira, a matar barata, a instalar lâmpada, a instalar computadores, a lixar madeira, a consertar motor de carro. Já namorei no cinema, na praia, na banheira, no carro, num sofá cheio de pulgas, numa pousada luxuosa. Já peguei chuva, já morri de frio, já li dois livros de Joyce e dezenas de Agatha Christie e já escrevi um livro. Já morei em mais de três cidades, dirigi muitos carros, fiz longas viagens de ônibus, passei horas no volante em estradas e já enjoei em barcos. Já vi o sol nascer e se pôr em mais lugares do que consigo lembrar. Já fiz amor no chão, no colchonete, no colchão inflável e até na minha própria cama. Comprei um Ipod. Tive camisas do meu time. Ganhei duas máquinas fotográficas de presente. Morei sozinho, dividi quarto, chorei, sorri e tantas outras coisas.
Mas nunca antes na minha vida eu me senti tão bem como agora. Porque moro numa casa nova. Porque há uma vista linda na varanda. Porque as pessoas que eu mais amo na vida estão perto de mim. Porque nada se compara a deitar na rede de vez em quando e respirar fundo, fechar os olhos e perceber que o corpo se entrega à tranqüilidade como um bebê no colo da mãe. Nada jamais foi como chegar agora de noite e deixar as cores da minha casa invadirem meus olhos e meu coração. Nessas horas, nada tem importância. O mundo, a política, os livros, a música, o que já me fez bem, o que já me fez mal. Só me interessa o que me acalma e me realiza os sentidos, só a pele macia de minha companheira, o cheiro quente dos meus filhos, a comida boa no fogão, o silêncio da rua calma e um horizonte enorme para ficar olhando, olhando, olhando.
E não há mais nada de importante acontecendo no mundo.





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