Sempre tive a ilusão de que, para se fazer alguma coisa, produzir algum tipo de arte, pensar, refletir, o melhor seria estar em um lugar calmo, bonito, como a margem de uma lagoa ou a orla de um bosque, e relaxar, buscar o silêncio interior, tranqüilizar a mente. Só que em todas as vezes que eu resolvi fazer isso, a mente tranqüilizou-se tanto que… dormiu! E eu simplesmente nunca consegui ter uma idéia que prestasse num lugar desse.
Talvez seja verdade o que dizem, que uma alma em paz não escreve uma linha que preste. Contudo, eu, que persigo freneticamente as palavras e quase sempre as vejo fugindo de mim, também não posso maldizer minha paz, pois a quis e lutei por isso. Mas o que fazer se a paz que eu quero me embota?
Minha sorte é que as idéias que tenho me aparecem nas horas mais estranhas, nos lugares mais incomuns. Idéias voluntariosas que chegam sem avisar e mesmo quando estou ocupado com alguma coisa importante – como por exemplo, escutando minha mulher falar – elas me arrebatam e me levam voando quase que sem que eu perceba. Quando vi, já perdi o assunto e só me resta aguardar a bronca.
Inútil tentar me preparar para as idéias. Sentar-me em lugar agradável, colocar uma boa música, isolar-me, isso só as afasta. Enfiar a cara na bebida e esperar que minha mente funcione em vibrações diferentes e artísticas, só faz com que eu sinta um irrefreável sono. Enfronhar-me em livros, buscar referências, desconstruir técnicas e aprender maneiras é bom mas também não me ajuda a pensar.
E pensar é uma das coisas que eu mais gosto de fazer. Apesar disso, vivo a esperar as idéias feito mulher de pescador na beira do mar. Também é inútil. Qualquer um que conheça o mar sabe que a gente nunca vê a jangada no horizonte. Distrai-se um segundo e ela está quase te atropelando. Idéias são assim.
As minhas – quer dizer, quem sou eu para possuí-las, elas que chegam de repente, por vezes só passar uns dias hospedadas na minha cabeça? – eu levei tempo para aprender como esperar. Não adianta limpar a mente. É preciso que eu me ocupe com alguma coisa – dirigir, tocar violão, conversar com alguém, brincar com as crianças, tomar banho, coisas assim. Também não adianta nada querer guardá-las em papeizinhos ou gravá-las. Elas morrem imediatamente e se chegam a serem relidas ou escutadas, parecem apenas cadáveres de idéias.
E quando eu sonho com alguma idéia boa e ela me obriga a sonhar – acordado - o mesmo sonho por semanas, meses e até anos? Porque a idéia que sobrevive, o faz na memória, sendo infinitamente moldada, mascada, revolvida, sempre nesses horários onde a mente parece estar ocupada com alguma atividade, nunca quando ela está voltada especialmente para a finalidade de pensar na idéia. Se isso acontece, a idéia vira fumaça e desvanece, e quando volta, é quando a gente menos espera.
Se é muito complicado tentar não ter controle sobre essas coisas, o fato é que idéias são matéria de difícil manuseio. Talvez por isso mesmo temos ânsia por elas e quando chegam, as tratamos como se fossem bens preciosos e então anotamos e tiramos cópias e fazemos backups. Mas ter idéias, creiam, também é um esforço de repetição, de exercício. Chega um dia que aquele acostumado com as idéias, conclui que de onde vem uma, vêm outras e mais outras e mais e mais e então as idéias passam a ser vulgares. Nessa hora, é necessário outro esforço: o de perceber quais delas realmente valem a pena.
Por fim, quem não se apega a elas quando elas vêm, tem a mania de sofrer quando elas se vão. Como pais que, quando seus filhos crescem e vão embora, não conseguem ficar sem ligar para eles todo santo dia, para saber se comeram, se tomaram banho, se lavaram atrás das orelhas, e assim vai. Idéias também crescem, amadurecem, mas se viram coisas reais – um texto, um livro, uma pintura, uma música – elas têm a obrigação de se virar por elas mesmas, sobreviver sozinhas, agüentar todo tipo de agrura. Só uma idéia forte e bem construída agüenta a pressão desse mundo que dá tão pouco valor a elas.
Trabalhar com idéias é delicado, é trabalhoso, é sofrido e requer aprendizado, desapego e outras artes de sintonia fina. Idéias são substância ao mesmo tempo frágil e diáfana e ainda assim podem causar verdadeiras explosões. Toda idéia tem em si o potencial de um cataclismo. Por isso sofre quem escolheu a lida com a idéia. Como o doce Quintana, que escreveu um verso que dizia: Que esta minha paz e este meu amado silêncio/ Não iludam a ninguém (…) Em mim, na minha alma, pressinto que vou ter um terremoto!






que lindo esse post.
adorei.
as idéias vêm mesmo quando não as esperamos. é só estarmos atentos para pescá-las.
um beijo grande.
Lu
É engraçado, toda vez que tenho uma idéia pra escrever, tenho preguiça junto, dai quando não tenho mais preguiça a idéia não me parece adequada… ai, ai, acho que realmente não nasci pra escrever…hehehehe
Preciso andar com um caderninho na bolsa. Tenho as idéias, mas depois na hora de escrever, já esqueci.
BJs.
Oi VP! Tá filosófico hoje…
Acabei de ver um post (anterior ao seu) sobre aquela mutr… “promoção filantrópica” da Oi… o Caio Cesar explica melhor a maracutaia e o quão mais embaixo é o buraco:
http://www.caiocesar.cc/?p=8194151
Re: Grande dica, Rafa. Ah, e eu não estou filosófico. A verdade é que, de vez em quando, como no post da Oi, eu saio do meu estado natural de espírito e desço à terra… (VP)
[...] “Das Idéias“, texto de Marcos VP, autor do blog “Pirão Sem [...]
que lindo post!! adorei!!!
vi a indicacao no fiapo de jaca e adorei!!! ja vai pro favoritos! hihihi
qto as ideias…sei bem como e tentar, preparar o terreno e de repente…um soooono!!! hihihi carrego meu caderno de ideias comigo o tempo todo, mas elas tem mania de aparecer qdo estou quase pegando no sono. sabe aquela hora em que vc ja se preparou pra dormir e esta estirado na cama esperando morpheu vir te pegar pelos bracos????? pois e! ai eu fico no dilema de despertar pra anotar ou adormecer e rezar pra q a ideia do outro dia ser melhor!!!
abracos!!!
Re: Obrigado pelo elogio, querida. Volte sempre. Beijos…(VP)