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DAS IDÉIAS

06/18/2007 por VP

icone-cronicas.gifSempre tive a ilusão de que, para se fazer alguma coisa, produzir algum tipo de arte, pensar, refletir, o melhor seria estar em um lugar calmo, bonito, como a margem de uma lagoa ou a orla de um bosque, e relaxar, buscar o silêncio interior, tranqüilizar a mente. Só que em todas as vezes que eu resolvi fazer isso, a mente tranqüilizou-se tanto que… dormiu! E eu simplesmente nunca consegui ter uma idéia que prestasse num lugar desse.

Talvez seja verdade o que dizem, que uma alma em paz não escreve uma linha que preste. Contudo, eu, que persigo freneticamente as palavras e quase sempre as vejo fugindo de mim, também não posso maldizer minha paz, pois a quis e lutei por isso. Mas o que fazer se a paz que eu quero me embota?

Minha sorte é que as idéias que tenho me aparecem nas horas mais estranhas, nos lugares mais incomuns. Idéias voluntariosas que chegam sem avisar e mesmo quando estou ocupado com alguma coisa importante – como por exemplo, escutando minha mulher falar – elas me arrebatam e me levam voando quase que sem que eu perceba. Quando vi, já perdi o assunto e só me resta aguardar a bronca.

Inútil tentar me preparar para as idéias. Sentar-me em lugar agradável, colocar uma boa música, isolar-me, isso só as afasta. Enfiar a cara na bebida e esperar que minha mente funcione em vibrações diferentes e artísticas, só faz com que eu sinta um irrefreável sono. Enfronhar-me em livros, buscar referências, desconstruir técnicas e aprender maneiras é bom mas também não me ajuda a pensar.

E pensar é uma das coisas que eu mais gosto de fazer. Apesar disso, vivo a esperar as idéias feito mulher de pescador na beira do mar. Também é inútil. Qualquer um que conheça o mar sabe que a gente nunca vê a jangada no horizonte. Distrai-se um segundo e ela está quase te atropelando. Idéias são assim.

As minhas – quer dizer, quem sou eu para possuí-las, elas que chegam de repente, por vezes só passar uns dias hospedadas na minha cabeça? – eu levei tempo para aprender como esperar. Não adianta limpar a mente. É preciso que eu me ocupe com alguma coisa – dirigir, tocar violão, conversar com alguém, brincar com as crianças, tomar banho, coisas assim. Também não adianta nada querer guardá-las em papeizinhos ou gravá-las. Elas morrem imediatamente e se chegam a serem relidas ou escutadas, parecem apenas cadáveres de idéias.

E quando eu sonho com alguma idéia boa e ela me obriga a sonhar – acordado - o mesmo sonho por semanas, meses e até anos? Porque a idéia que sobrevive, o faz na memória, sendo infinitamente moldada, mascada, revolvida, sempre nesses horários onde a mente parece estar ocupada com alguma atividade, nunca quando ela está voltada especialmente para a finalidade de pensar na idéia. Se isso acontece, a idéia vira fumaça e desvanece, e quando volta, é quando a gente menos espera.

Se é muito complicado tentar não ter controle sobre essas coisas, o fato é que idéias são matéria de difícil manuseio. Talvez por isso mesmo temos ânsia por elas e quando chegam, as tratamos como se fossem bens preciosos e então anotamos e tiramos cópias e fazemos backups. Mas ter idéias, creiam, também é um esforço de repetição, de exercício. Chega um dia que aquele acostumado com as idéias, conclui que de onde vem uma, vêm outras e mais outras e mais e mais e então as idéias passam a ser vulgares. Nessa hora, é necessário outro esforço: o de perceber quais delas realmente valem a pena.

Por fim, quem não se apega a elas quando elas vêm, tem a mania de sofrer quando elas se vão. Como pais que, quando seus filhos crescem e vão embora, não conseguem ficar sem ligar para eles todo santo dia, para saber se comeram, se tomaram banho, se lavaram atrás das orelhas, e assim vai. Idéias também crescem, amadurecem, mas se  viram coisas reais – um texto, um livro, uma pintura, uma música – elas têm a obrigação de se virar por elas mesmas, sobreviver sozinhas, agüentar todo tipo de agrura. Só uma idéia forte e bem construída agüenta a pressão desse mundo que dá tão pouco valor a elas.

Trabalhar com idéias é delicado, é trabalhoso, é sofrido e requer aprendizado, desapego e outras artes de sintonia fina. Idéias são substância ao mesmo tempo frágil e diáfana e ainda assim podem causar verdadeiras explosões. Toda idéia tem em si o potencial de um cataclismo. Por isso sofre quem escolheu a lida com a idéia. Como o doce Quintana, que escreveu um verso que dizia: Que esta minha paz e este meu amado silêncio/ Não iludam a ninguém (…) Em mim, na minha alma, pressinto que vou ter um terremoto!

Publicado em crônicas, papo cabeça | 6 Comentários

6 Respostas

  1. em 06/18/2007 às 2:37 AM lulu

    que lindo esse post.
    adorei.

    as idéias vêm mesmo quando não as esperamos. é só estarmos atentos para pescá-las.

    um beijo grande.

    Lu


  2. em 06/18/2007 às 9:46 AM Avassaladora

    É engraçado, toda vez que tenho uma idéia pra escrever, tenho preguiça junto, dai quando não tenho mais preguiça a idéia não me parece adequada… ai, ai, acho que realmente não nasci pra escrever…hehehehe


  3. em 06/18/2007 às 11:00 AM Carol Linden

    Preciso andar com um caderninho na bolsa. Tenho as idéias, mas depois na hora de escrever, já esqueci.
    BJs.


  4. em 06/18/2007 às 12:46 PM Rafael Netto

    Oi VP! Tá filosófico hoje…
    Acabei de ver um post (anterior ao seu) sobre aquela mutr… “promoção filantrópica” da Oi… o Caio Cesar explica melhor a maracutaia e o quão mais embaixo é o buraco:
    http://www.caiocesar.cc/?p=8194151

    Re: Grande dica, Rafa. Ah, e eu não estou filosófico. A verdade é que, de vez em quando, como no post da Oi, eu saio do meu estado natural de espírito e desço à terra… (VP)
    :-)


  5. em 06/21/2007 às 12:36 PM FIAPO DE JACA » Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

    [...] “Das Idéias“, texto de Marcos VP, autor do blog “Pirão Sem [...]


  6. em 06/25/2007 às 4:35 PM Nina

    que lindo post!! adorei!!!
    vi a indicacao no fiapo de jaca e adorei!!! ja vai pro favoritos! hihihi
    qto as ideias…sei bem como e tentar, preparar o terreno e de repente…um soooono!!! hihihi carrego meu caderno de ideias comigo o tempo todo, mas elas tem mania de aparecer qdo estou quase pegando no sono. sabe aquela hora em que vc ja se preparou pra dormir e esta estirado na cama esperando morpheu vir te pegar pelos bracos????? pois e! ai eu fico no dilema de despertar pra anotar ou adormecer e rezar pra q a ideia do outro dia ser melhor!!!
    abracos!!!

    Re: Obrigado pelo elogio, querida. Volte sempre. Beijos…(VP)



Fechado para comentários.



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