Há músicas que me passam e grudam em minha memória por dias, semanas a fio. Mas há outras que me ferem a alma. Fundo. Aconteceu há muitos anos quando escutei “Clube da Esquina” – a primeira – pela primeira vez. Há nela um verso que diz: “já é hora do corpo vencer a manhã”. E este verso me impeliu para fora de uma depressão, ainda que banhado a uma amargura grossa e escura como breu.
Dia desses outra música me veio perturbar o espírito. Enquanto eu cumpria meu pequeno luto pelo Manuel, – bobagem, a quem eu quero enganar? dói isso – entrava em minha vida uma música que, de tão falada e tão discutida, já é velha. E aí, de repente, eu maldisse todas as vezes em que eu dei ouvidos a vozes preconceituosas. É que Jorge Drexler, aquele uruguaio que ficou conhecido por ganhar um Oscar por uma música do filme “Diários de Motocicleta”, de Walter Salles – entendam, o filme é brasileiro, o galã é mexicano, o interprete da música, espanhol e o vencedor do Oscar, uruguaio, daí o preconceito – eu já conhecia, de ouvir falar e por uma música, Mal Intento, gravada no segundo disco de Maria Rita. O que eu não conhecia, por incrível que possa parecer, era a canção Al Otro Lado del Rio.
Al Otro Lado del Rio – que eu conheci portanto, no maravilhoso arranjo do novo CD do Boca Livre – parece uma músiquinha beócia de tema e letras simplórios. Pode ser – não sei ao certo – que evoque partes do filme, que ainda não assisti, ou da vida de Che Guevara. Não importa. Simplória, curta, a canção tem clima. Clima, demais. Dá para se sentir na canoa, sob o céu escuro, frio adentro, no cansativo esforço de remar mas principalmente, no hercúleo esforço de acreditar. Al Otro Lado del Rio, caso ninguém tenha percebido, é uma música sobre fé. E há coisa mais difícil hoje em dia do que crer?
Sabem, perder um animalzinho que em menos de um mês teve tempo de se tornar querido é duro. Perder um parente próximo é mais duro ainda. Perder a fé e a esperança, contudo, é insuportável. Pensar no país e na escumalha de mentirosos que ladram tanto de um lado quanto de outro do rio desse desgoverno, é complicado. Muito mais difícil, porém, é pensar que, dentre esses que aí estão, não há mais quem se importe com o que é humano. Quando uma música como Al Otro Lado del Rio me pega num momento desses, eu me vejo obrigado a pensar.
Jovens que nunca foram socialistas e adultos que continuam sendo não são dignos de confiança, disse um dia um desses daí que dizem. Sabe-se que o socialismo não dá certo, porque viver tutelado é antinatural ao homem e o homem precisa ter, pelo menos, a idéia de que pode viajar e tomar sorvete livremente mesmo que não tenha dinheiro para isso. Sabe-se que o capitalismo não dá certo porque o homem precisa comer, e se vestir, e educar seus filhos e sem dinheiro, mata-se e morre-se. Sabe-se igualmente que o homem comum é vil e que corta fora o braço de quem lhe oferece a mão, se não instintivamente no começo, com certeza quando o enfado do que é possível lhe atinge. E sabe-se também que ninguém cuida de ninguém sem interesse, ainda que este seja o de obter carinho e amor, ou controle, ou riqueza, ou fama, ou poder ou as benesses supostas do etéreo. No fundo, no fundo, cinco minutos de um pequeno esforço de pensamento nos leva à conclusão de que a humanidade é um caso perdido e que tudo em contrário é tão somente ilusão. Trabalhar pelo que é humano é, como na fábula de Esopo, acolher no peito a cobra que, cedo ou tarde, picar-nos-á.
Só que nada disso importa à alma humana que se deixa levar pela correnteza de uma música que nos acena com a possibilidade da justiça e da redenção, ainda que o caminho seja duro, ainda que as pedras sejam pontudas e que estejam nas mãos dos inimigos e dos ladrões. A alma abre-se em janelas, escancara-se ingênua em lágrimas e quer sair por aí em trens, em lombos de burro, em canoas furadas e mudar o mundo e levar o conforto a todos e pregar que o mundo é bom. A sensação, sei, dura até que a música acaba. Mas fere o espírito com um fogo que não passa e volta quando a música recomeça, nos fones de ouvido ou na mente e fica até o dia em que nos descobrimos diante dos cenários que ela evoca. Então, com certeza, virá o choro amargo da realidade a banhar frio o coração, pois nada se muda.
O mundo, na verdade, só muda dentro de nossos próprios olhos, nos espelhos com que o vemos, imagem refletida, invertida, ilusão, sombra, luz e filtro. A música, essa, é a cama onde choraremos acordados e onde, dormindo, viveremos os sonhos de encontrar esta luz, qualquer que seja ela, nesse lugar encantado que estará sempre do outro lado do rio.






A música tem a ver com um lance do filme, sim – que vale a pena ser visto, pela bela fotografia e por contar a história de um jovem idealista que, infelizmente, tornou-se um adulto desses em quem não se deve confiar.
Dá pra ouvir mais do Jorge Drexler no Soundpedia (conhece? http://soundpedia.com) e vale a pena, o cara é bom.
Re: Valeu a dica, queridíssima. Beijo…(VP)
Beleza de texto, parabéns. Partir da beleza (e do poder) de uma canção para uma análise social e espiritual do ser humano não é das tarefas mais simples, e gostei muito do que li. No que diz respeito ao socialismo diria que concordo 100%.
No disco ‘Segundo’ da Maria Rita se existe algo que preste é justamente a canção de Jorge Drexler, que acho que se chama ‘Mal Intento’. Vou ver se baixo essa gravada pelo Boca Livre, deve ter ficado uma beleza.
[]´s
Pierre
Re: Obrigado, bicho. Abraço…(VP)