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Pirão Sem Dono

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URBANA LEGIO OMNIA VINCIT

09/25/2007 por VP

icone-musicology.gif(Nota: há umas duas semanas, a Rede Globo exibiu um especial sobre Renato Russo, onde o ex-lider da banda Legião Urbana era interpretado pelo ator Bruce Gomlevski, o mesmo que vem, com grande sucesso, interpretando o músico pelos teatros do país. Eu quis ver a peça mas não consegui. Depois de ver o especial, contudo, ficou-me a impressão que o ator interpreta Renato Russo meio tom acima. E que todo o especial foi feito muitos e muitos tons abaixo.)

Dizem que odiar uma coisa é um grande passo para amá-la. Isso aconteceu comigo exatamente no ano de 1986. Uns seis meses antes, quando o Rock Brasil já bombava nas rádios, corações e mentes dos jovens, uma banda esquisita fez sua primeira aparição na televisão. O baterista era um moleque com cara de menino criado pela avó; O guitarrista, um dândizinho que era uma cópia perfeita de Johnny Marr, dos Smiths; O baixista, um negão que parecia congelado em carbonite, tamanha sua falta de ginga. Mas o pior deles era o vocalista: um sujeito estranho, com cara de quem não tomava banho há algumas semanas, uns oclinhos quadrados, voz de cantor de jovem guarda (Jerry Adriani, para ser mais específico) e um jeito de dançar que – para um cara que nunca tinha ouvido falar em Michael Stipe e que já achava Arnaldo Antunes, no mínimo, no mínimo, um freak - era para lá de bizarro. O nome da música: Será. A banda: Legião Urbana. Eu jamais poderia supor que aquele amontoado de estranhezas na minha frente iria se tornar a maior banda de rock brasileira de todos os tempos.

E não demorou muito para acontecer. Em 86, eu me mudei de Fortaleza para o Rio de Janeiro. Fui morar em um condomínio enorme e o Legião já era uma febre. Eu continuava achando as músicas Será e Ainda é Cedo, os primeiros sucessos do grupo, muito chatas. A massificação foi me convencendo aos poucos, mas eu permaneci renitente até o dia em que eu escutei Teorema. E Soldados. E O Reggae. O golpe de misericóridia veio com Baader-Meinhof Blues e Por Enquanto. Em 86 mesmo seria lançado o segundo álbum da banda. Tempo Perdido, Índios, Andrea Doria e Eduardo e Mônica vieram retirar de mim e de todos à minha volta qualquer chance de resistência. Estávamos todos apaixonados pela banda de Marcelo Bonfá, Dado Villa-Lobos, Renato Rocha e Renato Russo.

A história do Legião Urbana todo mundo conhece: surgiu a partir do fim da banda Aborto Elétrico (da qual derivou também o Capital Inicial), na cena pós-punk de Brasília, no início dos anos 80. Isso tudo se encontra no detalhado encarte do terceiro álbum do grupo, “Que País é Esse 1978-1987″, que também foi um sucesso arrebatador. Todas as músicas do disco eram excelentes, desde a melódica Angra dos Reis, passando pela arrebatadora Eu Sei, pela já mitológica Química até chegar na música que, sem dúvida foi o grande fenômeno radiofônico da era Legião: Faroeste Caboclo. Não me recordo de nenhum sucesso estrondoso de rádio mais longo que os 9 minutos (Infinita Highway, dos Engenheiros do Hawaii, tem 6min10s, e Eduardo e Mônica, 4min32s) da épica saga de João de Santo Cristo.

Em 1989, dois anos depois de “Que País é Este”, o Legião voltava a lançar um disco, “As Quatro Estações”, já sem a presença de Renato Rocha, o baixista. Se “Que País é Este” era um trabalho mais batido, mais barulhento, mais com a cara do primeiro disco, “As Quatro Estações” retomava a trilha do melodioso “Dois”. Mais melodioso, mais religioso, mais romântico – ainda que tenha sido um choque para muita gente se dar conta de que tipo de romântico era Renato Russo – foi um trabalho de grande sucesso, de músicas inesquecíveis como Pais e Filhos, Meninos e Meninas e Há Tempos, legítima continuação de Tempo Perdido.

Em 1991, o Legião gravou o álbum “V”. Muita gente o tem como o melhor disco do Legião, ainda que seja o mais hermético, o mais obscuro e sem dúvida, o mais triste. Renato Russo começava a sentir os efeitos da doença que lhe venceria cinco anos mais tarde. Mas, apesar da estranheza inicial com que foi recebido, várias músicas do disco tocaram bastante no rádio: O Teatro dos Vampiros, a melódiosa música de trabalho, legítima sucessora de Tempo Perdido e Há Tempos; O Mundo Anda tão Complicado e Vento no Litoral, que remetia a Angra dos Reis. Nesse álbum, também havia a longuíssima Metal Contra as Nuvens, música de ascendência medieval que era um rasgado protesto contra o governo Collor, que então começava, confiscando os bens e a esperança de milhões de brasileiros.

Em 1992, o Legião Urbana, que até então nunca tinha lançado um álbum ao vivo, gravou “Música para Acampamentos”, disco duplo que trazia algumas faixas de grandes shows, outras do Acústico MTV (que só mais tarde viria a ser lançado em CD), trilhas gravadas em programas de rádio (pois o Legião jamais se apresentou na televisão, em programas como Xuxa, Faustão e similares) e músicas obscuras de estúdio, como A Canção do Senhor da Guerra. No ano seguinte, 1993, era lançado “O Descobrimento do Brasil”, uma espécie de acerto de contas com o punk, com guitarras potentes, bateria bem marcada e temas mais ácidos nas letras, como no sucesso Perfeição. E enquanto os antigos fãs apostavam na decadência do grupo, uma nova leva de aprendizes começava, a partir desse disco, a idolatrar o Legião e a fazer de canções como O Descobrimento do Brasil, Vinte e Nove e Os Anjos, palavras de ordem, assim como também tentar manter viva a frase “ouça no volume máximo”, que havia em todos os encartes dos discos do grupo. Dois anos depois, em 95, era lançada a box de lata com os seis primeiros discos do Legião, um sonho de consumo caríssimo que eu só vim a comprar muito tempo depois.

Mas já não havia muito tempo. Renato Russo, que assim como Kurt Cobain nunca teve uma relação amistosa com a fama e com os fãs, já estava no limite de sua paciência. E foi então que ele começou a buscar outros caminhos, que o afastassem do messianismo que a liderança do Legião colocava em suas costas. Renato gravou um disco de standards em inglês (”The Stonewall Celebration Concert”, 1994), e depois em italiano (”Equilíbrio Distante”, 1995) . Restou-lhe fôlego para apenas mais um trabalho frente à banda, o obscuro “A Tempestade”, gravado entre janeiro e junho de 1996. Este, e não o disco “V”, finalmente seria o réquiem da banda. Renato morreu em outubro do mesmo ano e a banda morreu com ele. Apenas uma música deste álbum, ainda que na voz de Cássia Eller, chegou a fazer sucesso: 1º de julho, ainda que os tardios fãs tivessem tentado transformar a canção Dezesseis no canto do cisne do grupo.

Dado Villa-Lobos, o guitarrista alçado a produtor musical, cuidou então de remexer o baú de Renato Russo. Desde então foram lançados o “Acústico da MTV”, o disco “Uma Outra Estação”, que trazia as últimas gravações de estúdio da banda e algumas canções antigas, a coletânea “Mais do Mesmo” e dois álbuns duplos com apresentações ao vivo: “Como é que se diz Eu te Amo?”, gravado no Metropolitan em 1994, o último show do grupo, e “As Quatro Estações ao Vivo”, antológica apresentação realizada no Parque Antártica, em São Paulo, no ano de 1991. Além disso, ainda foram lançados mais dois discos solos póstumos de Renato Russo: “O Último Solo” (1997) e “Eterno Presente”, que em 2003 ainda teve fôlego para alçar a canção Mais uma Vez, parceria com Flávio Venturini gravada em 1987 pelo 14 Bis, à condição de uma das mais tocadas no rádio naquele ano. Tenho para mim que somente Velha Infância dos Tribalistas, tocou mais.

Fechou-se assim o ciclo do Legião Urbana, ainda que, como as flores de plástico dos Titãs, seja difícil imaginá-los sendo esquecidos ou ignorados pela história. O legado de Renato Russo e Cia., tanto melodica como filosoficamente, retrata como poucas obras, a face de um país – e da juventude desse país – que buscava se descobrir e se encontrar, mas não sabia quem era. O país e seus jovens ainda não sabem quem são, mas sem dúvida sempre será possível dizer que somos tão jovens e temos todo o tempo do mundo. Eles, apesar de tudo, o tiveram, na fração infinita de sua existência.

Para encerrar, uma das coisas boas de se ter na cabeça e na estante toda a discografia de uma banda, é poder brincar com certas listagens. Como, por exemplo, indicar o “best of the best” da obra do Legião Urbana.

- 1º sucesso: “Será” (Legião Urbana, 1984)
- Último sucesso: “1º de Julho” (A Tempestade, 1986)
- A música mais característica do grupo: “Será” (Legião Urbana, 1984)
- A música mais tocada em acampamentos: “Tempo Perdido” (Dois, 1986)
- O grande fenômeno de rádio: “Faroeste Caboclo” (Que País é Esse, 1987)
- A música mais tocada em bares: “Pais e Filhos” (As Quatro Estações, 1989)
- A música mais triste: “Vento no Litoral” (V, 1991)
- A melhor letra: “Índios” (Dois, 1986)
- A melhor melodia: “Andrea Doria” (Dois, 1986)
- A mais gravada por outros cantores: “Será” (Legião Urbana, 1985)
- A mais irônica: “Metrópole” (Dois, 1986)
- As mais obscuras: “Sagrado Coração” (Uma Outra Estação, 1997), que apesar de ter letra foi gravada apenas instrumental, pois não havia registro na voz de Renato Russo; e “O Grande Inverno na Rússia”, que foi citada no disco “Que País é Esse”, mas jamais foi gravada.
- A mais polêmica: “Dado Viciado” (Uma Outra Estação, 1997)
- A mais romântica: “O Mundo Anda tão Complicado” (V, 1991)
- A mais raivosa: “Mais do Mesmo” (Que País é Esse, 1997)
- A mais longa: “Metal contra as Nuvens” (V, 1997)
- A mais curta: “Central do Brasil” (Dois, 1996)
- A melhor música que nunca foi sucesso de rádio: “Fábrica” (Dois, 1986)
- O sucesso de rádio mais chato: “Quase Sem Querer” (Dois, 1986)
- A música mais difícil de cantar: “Faroeste Caboclo” (Que País é Esse, 1997)
- A música mais difícil de tocar: “Música Urbana 2″ (Dois, 1986)
- A que ninguém lembra: “Acrilic on Canvas” (Dois, 1986)
- A que ninguém esquece: “Ainda é Cedo” (Legião Urbana, 1984)
- O retrato de uma geração: “Geração Coca-Cola” (Legião Urbana, 1984)
- O retrato de um tempo: “O Teatro dos Vampíros” (V, 1991)
- O retrato de um país: “Perfeição” (O Descobrimento do Brasil, 1993)
- E a minha preferida: “Eu Sei” (Que País é Esse, 1987)

Discografia:
- Legião Urbana, 1984
- Dois, 1986
- Que País é Esse, 1987
- As Quatro Estações, 1989
- V, 1991
- Música para Acampamentos, 1992
- O Descobrimento do País, 1993
- Por Enquanto (lata), 1995
- A Tempestade, 1996
- Uma Outra Estação, 1997
- Mais do Mesmo (coletânea), 1998
- Acústico MTV, 1999
- Como é que se diz Eu te amo? (ao vivo), 2001
- As Quatro Estações Ao Vivo, 2004.

(Texto originalmente publicado no SoBReCarGa, nos dias 06 e 14 de outubro de 2004)

Publicado em musicology, música | 7 Comentários

7 Respostas

  1. em 09/25/2007 às 11:51 AM Rafael Netto

    Grande VP, também tenho tudo da Legião na estante (bem, não tenho o último ao vivo). Uma definição muito interessante da banda encontrei uma vez num site que esculachava todo o BRock com um parágrafo (ou menos) pra cada um. Sobre a Legião dizia mais ou menos assim: “foi uma banda muito boa enquanto a viadagem não tomou conta do seu líder”… Realmente depois da saída do armário do Renato os discos ficaram mais herméticos e obscuros, embora sempre tenham hits pinçados aqui e ali.

    “Perfeição” é uma obra prima. Ponto.

    O disco “As quatro estações” é o único que eu conheço que teve TODAS as músicas tocando no rádio. Até mesmo a estranhíssima “Feedback Song for a Dying Friend” eu cheguei a ouvir. Engraçado que a “1965″ que eu acho uma das melhores do disco, tocou muito pouco.

    A Legião também é um dos poucos artistas nacionais (e talvez o único pop/rock) cujos discos são mantidos em catálogo (e com preço de disco novo). Seus colegas Lulu Santos, Ultraje, Capital, Kid Abelha e acho que também Paralamas permanecem com sua obra trancada nos arquivos das gravadoras, salvo as onipresentes coletâneas.

    Acho que “1 de Julho” não foi o último sucesso não. Esse disco foi lançado com “A Via Láctea” e “Dezesseis” tocou bastante. “1 de Julho” só fez sucesso com o Cássia. No “Outra Estação” ainda teve “Antes das seis”. Aliás esses dois últimos discos é que são os mais tristes, eu não consigo ouvi-los. O “V” é mais conceitual, tipo um “Dark side of the moon”.

    Falando em “V”, acho que você confundiu “Metal contra as nuvens” (que é longuíssima) com “Teatro dos Vampiros” (que critica o Collor, “vamos sair, mas não temos mais dinheiro).

    É bom lembrar que recentemente saiu em CD a trilha do especial “Era dos Halley” que tem a versão original do “Senhor da Guerra”, a tal que a banda não aprovou mas que eu acho bem melhor. Acho que ainda existe uma terceira versão que só tocava no rádio.

    O baú da Legião não deve ter fundo, o Renato dizia que os discos dele eram compostos triplos, gravados duplos e lançados simples. Há tempos Dado, Bonfá e o Marcelo Fróes estavam preparando uma caixa de raridades, chamada “Material”, mas parece que o projeto emperrou por desavenças com os herdeiros do Renato.

    Re: A música “Metal Contra as Nuvens” também fala da era Collor… “Quase acreditei na tua promessa/ E o que vejo é fome e destruição/ Perdi a minha sela e a minha espada/ Perdi o meu castelo e minha princesa”. Quanto aos herdeiros de Renato, pelo que se viu no especial, eles são osso duro. Mas para bom entendedor, pingo é letra e as contradições sempre aparecem. Numa hora do especial, eles falam do alcoolismo de Renato e de como ele ficava 24 horas no ar, chapado. Qualque idiota sabe que o que dá esse sintoma não é bem o álcool… Abs…(VP)


  2. em 09/25/2007 às 2:24 PM Carol Linden

    Legião…. pffffff.


  3. em 09/25/2007 às 4:54 PM Avassaladora

    Pô, Legião é tudo! É a cara da juventude de Brasilia que não existe mais… aquela que sabia das coisas e não queria só queimar índios por ai…


  4. em 09/25/2007 às 5:11 PM andré

    Vá lá. A Legião foi a banda da nossa juventude (perdida). Mas ainda fico com os Mutantes se preciso for escolher o melhor rock de todos os tempos.

    Re: Fala, primo! Prazer de te ver aqui. Bem, eu ainda fico com o Legião, pelo conjunto da obra. Agora, que os Mutantes são um negócio mais mitológico, lá isso são. Da época deles, contudo, eu gosto mais do Terço. E dos Rollings Stones, hehe. Apareça. Forte abraço…(VP)


  5. em 09/28/2007 às 2:09 PM Lu Monte

    Lindo, lindo texto! Sou apaixonada pela Legião. sobre a interpretação do Bruce Grom-alguma-coisa, você tem razão, ela é forçada em alguns momentos, mas a peça vale a pena assim mesmo. Dizem que vai voltar a Bsb. Se voltar, vejo novamente.


  6. em 10/05/2007 às 3:58 PM Loh

    Oi, eu estou fazendo um trabalho, em que tenho que interpretar a música “Fabrica” do legião urbana ( cd Dois – 1986).
    Mas não consigo entender algumas coisas.
    gostaria que me ajudasse.
    desde já agradeço!


  7. em 11/21/2007 às 8:21 PM Carla Adriani Oliveira

    Comentando sobre o tema inicial deste texto: o Esppecial Por Toda a Minha Vida sobre o Renato Russo foi uma boa oportunidade para relembrarmos dos áureos tempos da Legião Urbana. O ator Bruce Gomlevsky conseguiu desempenhar com louvor Renato Russo. Na linha mantida pelo programa de mesclar interpretação, depoimentos e cenas reais, deixou a desejar nos depoimentos feitos de primeiro take, onde as pessoas gaguejavam, se embaraçavam e outra falha foi a apresentação de Fernanda Lima que faz a pergunta e ela mesma responde e erro de contra regra. Mas quanto ao talento do ator principal não há ressalvas e quem puder vè-lo no monólogo Renato Russo, A Peça terá a impressão, em vários momentos, de estar ter Renato ao alcance das mãos. É pura emoção e o final vira um grande show com a Banda Arte Profana que arrasa!. Imperdível! Experiência única!



Fechado para comentários.



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