Era uma vez – sim, esta é uma fábula no estilo de Grimm ou Andersen – duas irmãs. Chamavam-se Maria e Mariana e adoravam cantar. Um dia, cansadas de apenas se apresentar para os azulejos do banheiro, resolveram sair de casa rumo ao sucesso. O sucesso, naquele tempo, ficava para além da grande floresta escura do anonimato, onde as pessoas costumavam entrar e nunca mais sair, de modo que as irmãs se prepararam para uma árdua e perigosa viagem. Mas como tinham talento e coragem, não se intimidaram com os perigos da jornada. Sabiam que chegariam ao sucesso, mais cedo ou mais tarde.
Depois de vários meses caminhando por uma longa e tortuosa trilha conhecida como “a honesta e sensata”, apareceu-lhes um sedutor animal: o marqueteiro-de-fala-mansa. Conhecido por sua lábia e promessas mirabolantes, o animal acercou-se das meninas, e após verificar que elas tinham lá seu talento, ofereceu-se para guiá-las por um atalho que, segundo ele, as levaria rapidamente ao sucesso. “A que preço?”, perguntou Maria. “Terão de fazer tudo o que eu lhes disser” – respondeu ele – “e vocês estarão para sempre no meio do sucesso”. Mariana, a mais ansiosa e tola, encantou-se com a conversa do marqueteiro e aceitou segui-lo. Maria recusou-se. Assim, as irmãs se separaram e cada uma seguiu um caminho diferente.
Mariana foi levada para a casa do marqueteiro, chamada de “gravadora”. Lá, ela foi banhada e vestida com roupas estranhas. “Você tem que estar vestida para nosso público adolescente, afinal você é jovem”. Depois, foi pesadamente maquiada e conheceu alguns amigos do marqueteiro chamados de “compositores”. “Você vai cantar as músicas que eles fazem. São ótimas!”, disse-lhe o sedutor animal. “Mas eu não gosto delas… são bobas!” respondeu Mariana. “Isso não importa, o que interessa é que o público gosta delas e você vai vender milhões”. Depois, Mariana conheceu o “diretor”, que prometeu ensinar-lhe a se comportar nos filmes e clipes que ela estrelaria. Mostrou-lhe como fazer caras e bocas e Mariana começou a achar tudo muito estranho. Mas, como acreditava no marqueteiro, topou fazer tudo. E assim seguiam-se os dias, com Mariana gravando e trabalhando duro.
Certo dia, o marketeiro chegou eufórico à gravadora. “Mariana, você não sabe! Nós conseguimos, estamos na crista da onda! Suas músicas vão tocar na novelinha de adolescentes, e você vai se apresentar em vários desses programas de apresentadores gordinhos. Já está tudo marcado. E para esses programas, ainda vamos preparar uns arranjos unplugged… você sabe, não é? Deixa a música mais elegante. Afinal, você já é uma estrela. Depois disso, vamos arranjar umas pontas para você na novela das oito… você sabe atuar? Não importa. Ah! Quase esqueci: você tem uma sessão para um site de fotos sensuais para fazer daqui a dois dias!”. “Fotos sensuais???” apavorou-se Mariana. Não, aquilo não era nada do que ela pensava. “Bobagem, disse o marketeiro. Isso é apelo aos jovens. Eles querem você, sua voz, seu corpo, sua imagem, tudo!”. “Mas e os shows? eu nem ensaiei com a banda…”. “Que banda?” – retrucou o marqueteiro – “Ninguém mais toca com banda não. É tudo pleibeque. Vai dizer que não sabia?”.
E foi assim que Mariana chegou ao sucesso. Sim, ela tinha uma boa voz, era bonita, tinha presença e foi aplaudida nos programas e nos sites e nas revistas. Era convidada para ilhas e castelos, vivia tirando fotos, fez programas para crianças, apareceu em programas de esportes radicais fazendo rapel, paraquedismo, asa-delta, posou nua a primeira vez, arrumou o primeiro namorado famoso, e o segundo, e o terceiro, e o décimo-oitavo, e posou nua mais duas ou três vezes. E cada vez ficava mais conhecida e mais rica, e com ela – claro – o marqueteiro.
Um dia, sozinha no quarto, Mariana chorou. Depois de tantos anos naquela glamurosa vidinha de Barbie, ela percebeu que ela nunca tinha tocado ou cantado nada do que ela gostava realmente de tocar e cantar, a não ser sozinha no chuveiro, como ela fazia antes de sair com sua irmã pela floresta do anonimato. Chorava porque tinha lido em um site obscuro, na coluna de um crítico desconhecido, que sua irmã Maria estava lançando o primeiro CD em um bar alternativo de um bairro de artistas. Mariana não se conteve – precisava ver a irmã – e disfarçando-se o melhor que pode, foi assistir ao show. Maria estava linda, segura, cantava como nunca, junto com alguns amigos, músicos de qualidade superior. As músicas eram excelentes, a banda estava azeitada e tinha energia. Mariana sentiu o peito explodir de alegria e inveja. Era aquilo o que sempre quis fazer.
Depois do show, Mariana deu um jeito de ir ao camarim da irmã, vê-la. Quando Maria percebeu que a irmã estava ali mesmo, diante dela, também não conseguiu disfarçar o choro. Ficaram abraçadas por um tempo. Mariana foi quem falou: “Maninha, que inveja de você! Você está linda e feliz, cantando o que gosta”. “É verdade”, disse Maria”. “E como foi sua viagem pela floresta?”. “Foi difícil… Andei sem conseguir nada por muito tempo. Mas no final, acabei conhecendo outros perdidos que também queriam chegar ao sucesso. Ficamos amigos, nos juntamos para fazer música, tocamos em bares, em hotéis, até na rua. Mas a cada dia, conhecíamos mais gente legal, músicos, poetas, jornalistas, blogueiros. Eles gostavam da nossa música e nos davam força, falavam bem. E nós trabalhamos muito, compusemos, escrevemos, ensaiamos, criamos, inventamos, subvertemos. E hoje estamos aqui”. “Que bom, irmã! Ainda bem que eu te encontrei! Agora que você está aqui fazendo sucesso, nós podemos voltar a cantar juntas…”
Foi aí que Mariana percebeu que os músicos ao redor de Maria pareciam estar meio chocados. “Quer dizer que a Maria é irmã dessa patricinha deslumbrada?” perguntavam-se. Maria, constrangida, só conseguiu dizer à irmã, educadamente, que achava que o estilo delas realmente não combinava em nada. Mariana entendeu tudo. Beijou a irmã, disse-lhe que a amava e que se ela precisasse de alguma coisa, qualquer coisa, que a procurasse. Às vezes se telefonavam. E só. Ambas continuaram suas carreiras. Mariana foi contada entre Britneys, Mariahs, Christinas, Sandys e Wanessas, até o dia em que mesmo os adolescentes perceberam que ela já estava velha… e a esqueceram. Maria, quando se foi – e ninguém se esquece desse dia – era uma lenda.
O marqueteiro, gordo, rico e feliz, morreu há algum tempo, num acidente de moto.
(Texto originalmente publicado no SoBReCarGa, em 02 de maio de 2005)






Outra surpresa! Não sabia que tu escreveu para o Sobrecarga..
Abs!
T§
Re: Sim… foram 51 artigos, em dois anos. Eu fazia a coluna “Rádio Blá”. Abs…(VP)
Pastar por aqui é sempre uma delícia. Espero vc lá na nossa roça que é uma joça Tb.
Beijo
André, um Jerico
http://www.ideiadejerico.com
Sua presença será muito bem-vinda (e importante, depois dos seus Cadernos de Blogaria).