ESPELHO, PAREDE

Há cinco anos, meu primeiro post era exatamente uma mensagem numa garrafa. Mal sabia eu o quão profética seria a conhecida música do Police para os serumanos que então descobriam os blogs (”hundred billion castaways looking for a home”). Depois de tanto tempo, escrevo novamente para não ser lido. O serei, mas entendam, esse post não é para nenhum de meus leitores. Na verdade era para um amigo, um amigo que já (ou ainda) não tenho. Queria dizer a ele que estou escutando um disco triste a beça e de repente me deu vontade de conversar. Mas você não estava por perto. Não estava no Google Talk, não estava no MSN, nem na minha lista de emails. Queria falar que esse ano foi muito bom, mas que ele se encaminha para o final e eu ainda não consigo vislumbrar um descanso para essa síndrome de Coelho de Alice que me angustia. E não é só saudade de um tempo onde descobriam-se músicas em velhos discos e se tinha tempo de olhar as estrelas a noite inteira. Também é saudade, amigo, de um colo silencioso, de uma mão nos cabelos úmidos, de um olhar cúmplice, de um pensamento compassivo. Esse presente, esse dia-a-dia, irmão, é uma eterna saudade tanto do que já se foi quanto do que ainda não veio. Ah, sim, eu espero o porvir dessa garrafa que lanço nas ondas. Ilusão é seu nome e no entanto, quanta esperança ela carrega. Quem a irá abrir, quem a irá ler, alguém acreditará nela?

Por isso, escrevo hoje ao nada. O nada que enxergo na parede opaca que tenho diante de mim. Esse nada verdadeiro que nada reflete e por isso não nos engana. Não é um espelho brilhante que nos olha como se fosse uma pessoa real. De uma parede, só se espera o silêncio, ou quando muito, a reação dolorosa a um imprudente soco. Mas hoje eu escrevo para o não-reflexo da parede, para o infinito inquebrantável das ondas porque hoje é tua ausência o que sinto. E não me adiantariam respostas. Apenas o carinho. Contudo, o carinho da esperança é o único que tenho em mãos agora.

. . .

Fizeram-me uma pergunta há alguns dias e eu, contra toda a minha educação, respondi com outra pergunta, uma pergunta petulante, uma pergunta cabotina, tão impertinente aos meus ouvidos, entretanto, quanto a que me fizeram. Mas a resposta a ela era “Não, não estou. E possivelmente, jamais estarei”. Não dava para dizer isso no dia. Mas quem me conhece sabe que isso é tão somente a resposta óbvia.

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2 Comments on “ESPELHO, PAREDE”

  1. myla Says:

    engraçado, talvez vc me ache completamente maluca, mas assim q li seu txt, me lembrei de outro, pouco conhecido do Raduan. acho q ele, inteiro, dialoga com os dois q escrevi lá p o ViaAberta e tb com esse seu. reproduzo, aqui, o q mais importa:

    6. vc me levava a supor às vezes q o amor em nossos dias, a ex. do bom senso em outros tempos, é a coisa mais bem dividida deste mundo. aliás, só mesmo uma perfeita distribuição de afeto poderia explicar o arroubo corriqueiro a q todos se entregam com a simples menção deste sentimento. um tanto constrangido por turvar a transparência dessa água, há muito q queria te dizer: vá q seja inquestionável, mas tenho todas as medidas cheias dos teus frívolos elogios do amor.

    7. farto também estou das tuas idéias claras e distintas a respeito de muitas outras coisas, e é só pra contrabalançar tua lucidez q confesso aqui minha confusão, mas não conclua daí qq sugestão d equilíbrio, menos ainda q eu esteja traindo uma suposta fé na “ordem”, afinal, vai longe o tempo em q eu mesmo acreditava no propalado arranjo universal (q uns colocam no começo da história, e outros, se ponho o olho fora da janela, além do incontido arroto, ainda fico espantado com este mundo simulado q não perde essa mania d fingir q está d pé.

    o ventre seco - raduan assar

    Re: Se um texto meu te lembrou o Raduan Nassar, queridíssima, eu só posso ficar orgulhoso. Beijos…(VP)

  2. tarsischwald Says:

    Surrealismo e retrospectiva de final de ano em alta. Foi a impressão que tive.
    Vou falar sobre isso, tb, em breve…

    Abs!

    Re: Nem tanto surrealista, nem tanto retrospectiva. Foi um espasmo. Abração…(VP)

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