LIVROS
Promessa é dívida. Prometi escrever sobre os livros da Editora Os Viralata que eu li ao final do ano. Não deixaria de cumpri-la.
“Operação P2” - que eu li duas vezes e supostamente revisei - foi o segundo livro que li de Olivia Maia. O primeiro se chama “Que os mortos enterrem” - sim, eu ainda não li “Desumano” - e ainda não foi publicado. Ambos tem o estilo forte da Olivia como semelhança. Olivia é uma criadora de personagens. Ela os imagina e os cria de forma que eles se tornam quase reais e a partir daí ela se pergunta: que história esses personagens poderiam viver? E partem daí seus livros, de texto ágil, caracterizados por personagens - não poderia ser diferente - de poderoso mindstream. Operação P2 é um policial psicológico, vivido entre São Paulo e Rio de Janeiro, dividido entre dois personagens que antagonicamente resolvem remexer na mesma história, um para enterrá-la e o outro para trazê-la à tona.
Luiz Biajoni é um exagerado. Todo seu estilo de escrever - e talvez de viver - se baseia no exagero. É assim com “Sexo Anal - Uma novela marrom” que é um primor de hipérboles. “Virginia Berlim, uma experiência” não escaparia dessa proposição. Apresentado a mim como o maior encarte de CD dos últimos tempos, “Virginia Berlim” na verdade, é um conto comme il fault, um recorte de um momento, uma experiência, como o próprio título já diz. É melhor, sob minhas vistas, que o primeiro livro de Biajoni e seu tamanho - os livros pequenos de hoje costumam me incomodar - é coerente com o texto. O livro flui e Biajoni discorre sobre um fato recorrente da vida: nada é perfeito. Tudo no livro se volta a este aforismo, inclusive metalingüísticamente. Afinal, há um CD - um belo CD - no livro. E em teoria, este CD é parte da experiência. Acabei ouvindo-o depois de ler o livro, e comprovei o que já pensava: nada é perfeito e tudo em Biajoni extrapola. Uma palavra retirada do livro teria salvo a experiência da ligação entre texto e música. E então, tudo seria perfeito e “Virginia Berlim” seria um primor de sutileza. Mas quem disse que Biajoni quer isso?
“Os Melhores (e alguns dos piores) textos de Branco Leone” foi, sem dúvida e de longe, o livro mais engraçado que eu li nos últimos anos, e de certa forma, mais agradável que “Loucuras de Publicitário”, do Lula Vieira, que é hilário mas, a mim, incômodo. Nada neste livro do Branco é incômodo, pelo contrário. É um livro que nos solta a gargalhada e se o leitor não toma algumas precauções, solta outras partes mais recônditas do corpo. Um livrinho adorável, daqueles que a gente mantém na estante para ler de vez em quando, quando a vida insistir em pesar. 
Já “Incompletos“, o livro mais recente do Branco, tem um grande defeito, que é um defeito que eu percebo na maioria dos livros dos blogueiros, alguns com mais gravidade que outros: ele é pequeno. É curto. Quando a gente quer mais, ele acaba. Tudo bem, tem livros curtos que são aquilo mesmo, uma palavra a mais o estragaria. “Morte em Veneza”, do Mann é um desses casos. “Sexo Anal”, do Bia, eu já achei um livro grande, se é que você me entende. “Virginia Berlim” tem um tamanho mais confortável. Sim, eu entendo perfeitamente que a época frenética em que vivemos é propícia para livros pequenos, que o povo tem preguiça de ler, eu lamentavelmente sou publicitário mas não a tôa. Pelo menos eu posso entender o contexto ao meu redor. Mas eu gosto de tijolões, fazer o que? Fora esse pequeno porém, contudo, o livro é irretocável. As histórias são ótimas e mesmo a que mais me incomodou - a da festa - teve a qualidade de ser incômoda como a própria festa descrita. Eu, que prefiro que mil pulgas me infestem as axilas a ir a uma festa sozinho (ou acompanhado, eu odeio festas de morte), sabia que a história só podia acabar daquele jeito. Para mim, foi um conto absolutamente metalingüístico, angustiante, desesperador, tive que voltar várias vezes, uma merda completa. Odiei. Parabéns ao Branco, he did it.
Por fim, a grande surpresa do ano: “Meias Vermelhas e Histórias Inteiras“, livro de estréia do Doni. Supresa em termos. Esse foi, de longe, o ano do Doni na blogosfera. Segundo minha muy humilde opinião, o blog Hedonismos foi o mais bem escrito da rede esse ano que passou. E a verve do meu xará não poderia estar distanciada do livro. “Meias Vermelhas” é uma adorável coleção de histórias românticas, leves e sorrateiras, que nos pegam pelo pé (não seria a tôa o título) e nos levam até o final. Cronicas e contos de amor e principalmente de esperança, que é aquilo que por vezes sobra aos amantes. O amor, que por vezes é matéria explosiva e por outras um material que parece inerte, é o grande personagem. Moldado, remexido, remanchado. Mas sempre o amor, em sua presença e em sua possibilidade. Parabéns ao Doni.


Quinta-feira, Janeiro 3, 2008 at 3:58 pm
ah, muleke!
e qual a palavra, porra!
:>
Quinta-feira, Janeiro 3, 2008 at 4:08 pm
Li alguns textos de ‘Incompletos’ e é, atualmente, meu objetivo de leitura. Estou esperando ir ao Rio ou Sampa, pra pegar o livro. Já andei pentelhando o Branco pra ver se ele libera mais uns trechos do livro em seu blog, mas o espertalhão (e ele está mais do que certo!) disse que agora ’só comprando’. Quanto às outras dicas, ainda não li nenhuma, mas vou anotar. Um abraço!
Quinta-feira, Janeiro 3, 2008 at 8:49 pm
Você leu mais livros da editora do que eu, acredita? Mas o projeto de janeiro é completar todo o circuito… Assim que o Hedonismos voltar das férias citarei essa resenha (é óbvio!)
Quinta-feira, Janeiro 3, 2008 at 10:31 pm
belíssimas resenhas. vou escrever sobre Incompletos, é excelente.