Esta canção – lamento, rapazes e moças – não é para quem está começando com as revistinhas de cifras de violão. Talvez por isso, achar sua letra na rede não seja coisa muito fácil. E mesmo ouvir a música, obscura canção que talvez por ter sido considerada uma das mais difíceis – e só não impossível porque a surpreendente Carol Saboya dela se desincumbiu com maestria – interpretações de todo o cancioneiro, indo de picos de agudo a abismos de grave em poucos instantes, nunca tenha tocado em rádio. Mas o fato desta majestosa e suburbana letra de Aldir Blanc para a insondável melodia de Guinga não ser muito conhecida é um erro grave que por hora, pequenamente, reparo.
Carta de Pedra ( Igreja da Penha)
(Guinga/ Aldir Blanc)
prezado amigo, escrevo pra esclarecer
que mesmo antes de nascer
meu coração se fez humano por ser suburbano
e o agáivê, deu positivo porque meus irmãos
padecem de doença igual
e um degrau atrás de outro degrau
me leva de joelhos à igreja onde Deus me diz
que o humano me é estranho, sim,
porque é meu pai e, ai de mim
nós nos desentendemos sempre
e é assim que se faz canções, escadas, catedrais
que depois não visitamos mais
dão de nós o melhor testemunho.
prezado amigo, eu vi sair do papel
a pedra e o fogo que há no céu
e tudo parecia letra de chorinho e então também chorei
os meus avós e o pai são os degraus
aonde eu piso em direção ao caos
mas posso ver na beira goiabeiras, limoeiros, pés de sapoti
e a Penha volta aqui
feito o mito de uma Ressurreição
a hóstia é pedra hei de ralar,
a Santa não pode cumprir o que não me crismar
o pai que eu amo não demora
a valsa chora e eu sei que chora
pelas penhas que eu vou inventar
até que a própria Virgem mande eu descansar





