Acordar na hora que der vontade. Passar longos minutos a espreguiçar e revolver-se nas cobertas como gatos preguiçosos. Tomar um banho quente e revigorante. De chinelos e roupas largas, ir à padaria e tomar o café da manhã, com toda a calma. Voltar para casa, aboletar-se na rede, pegar o livro já marcado. Ler até esquecer do almoço. Cochilar mais um pouco. Acordar com fome e revirar a cozinha em busca de coisas simples e fáceis e quem sabe até um vinho doce daqueles que dá vergonha de oferecer aos amigos, mas que nos faz ficar leves e risonhos. Lembrar que não há ninguém nos esperando em canto nenhum para fazer coisa alguma e sentir o prazer esguichar pelas veias. Mais um banho, tépido e perfumao. Arrumar-se com zelo para encontrar o fim da tarde na rua, trocar cumprimentos, gastar conversa a tôa, ver gente, pensar nos amigos, fazer novos em lugares distantes, imaginários ou não. Construir rotinas novas e efêmeras em viagens, espantar-se com as diferenças, estranhar as semelhanças, rir feito bobo, chorar baixinho e só nos cantos escuros da memória. Perambular pelas redes do mundo, que ainda somos pessoas, terráqueos, gente, distribuir “ois”, matar saudades, mentir sobre o bom da vida, esconder os problemas, brigar com quem nos faz isso. E bem mais tarde, terminar tudo com alguma coisa doce e fumegante em xícaras com cara de casa de avó, retomar o livro até que ele pouse tranquilo em nosso peito, buscar a mão do outro, o braço do outro e deixar que o sono nos leve flutuando até nossa próxima vontade e aí então, começar de novo, outra vez, todos os dias, para sempre.
(Nota: acabei escrevendo, mas no fundo o que eu queria era requentar esta velha crônica aqui. Fiquem com as duas, então.)





