Começar com uma citação é sempre um risco, mas aí vai uma: “In broadcasting your audience is conjectural, but it is an audience of one. Millions may be listening, but each is listening alone (…) and has (or ought to have) the feeling that you are speaking to him individually. (…) in practice you are almost compelled to speak for the benefit of what you estimate as the stupidest person present.” Pois foi aquele tar de George Orwell que disse isso, referindo-se ao trabalho da comunicação para massas. Como hoje qualquer um se arvora a achar que está comunicando para massas e tantos por aí passam sua vida a palestrar e diatribizar sobre tudo e todos na longa rede, me lembrei dessa frase. É que eu leio tanta coisa estúpida inclusive de gente altamente letrada, mestrada e doutorada que eu só consigo achar que essas coisas não são para mim. E não são mesmo. Eu sou esclarecido, racional, questionador, pensante. Se nem o Papa é capaz de me fazer aceitar sem ler qualquer sandice, que diria tantos por aí que sandecem e eu leio cheio de vistas grossas e perspectivas.
Cada vez menos eu me permito por os pés na Barra da Tijuca, aqui no Rio. Com todo o respeito aos meus amigos – que como vocês sabem, são lindos, perfeitos e nunca fazem nada errado – que moram no bairro, eu digo: que lugar abominável, Santo Deus! É muita gente arrogante, prepotente, mal educada, espaçosa, barulhenta. E não escapa ninguém: os motoristas e os frentistas, os vendedores de carros e de picolé, as madames e senhorinhas bem vestidas, as faxineiras da praça de alimentação, os pit-boys dos 5 aos 25 anos, tudo é um conjunto medonho. Passei uma hora, uma miserável hora na praça de alimentação do maior shopping da américa latina e minha vontade era a de fugir correndo e nunca mais colocar os pés ali. Para vocês terem uma idéia, meu filho mais novo virou atração. E por que? porque passou meia hora sentado educadamente, comendo seu almoço. Em volta, os animais.
É sério. Eu saí da Barra transtornado ontem. Depois me chamam de bicho-do-mato, né @viva_? Mas o que fazer se eu não me adapto a esse tipo de coisa? Entre tantas coisas que me ocorreram ontem, eu esbarrei de leve em uma pracista do shopping. Como faço sempre com qualquer pessoa, mas principalmente com os mais humildes, eu pedi desculpas e sorri. A mulher me olhou como se eu fosse , sei lá, um pedaço de estrume. Numa boa, há quase 40 anos eu sei que um sorriso sincero consegue amolecer – e até melhorar o dia – das almas mais duras. Ali na minha frente estava – percebi – não uma alma dura, pura e simplesmente, mas uma alma absurdamente amarga. Juro por Deus, a primeira coisa que pensei foi que aquela pobre criatura deve estar acostumada a só reagir a esporro, a humilhação direta e em voz alta. E numa boa, eu não quero viver em um lugar onde eu precise tratar as pessoas assim para conseguir alguma coisa.
Falta pouco para chegar o dia em que se ouvirá no Rio a frase: “você sabe com quem está falando? eu sou da Barra!”
Talvez meu transtorno seja, em parte, pela proximidade da viagem para Fortaleza. A terra onde me criei há muito deixou de ser meu sonho de consumo para morar ou passar a velhice. Fortaleza é hoje uma cidade muito mais suja, desordenada e violenta do que a que deixei há mais de vinte anos. Mas eu tenho certeza de que a semana que me espera por lá vai ser um alento diante da falta de educação e da grosseria dos cariocas. Lá é diferente. Bem diferente.
Lamentavelmente não vai ter jogo para assistir por lá.
Dois dias em Morro Branco. Energia para a alma. Dá pra agüentar mais uns cinco anos dessa babel malcheirosa onde vivo.
Ah! claro, já ia me esquecendo… antes que chegue o primeiro engraçadinho dizendo que os incomodados que se retirem (nossa, como essa frase é carioca!) eu digo: me retiro sim, ontem, assim que tiver emprego e dinheiro em qualquer outro lugar. Até São Paulo, até Brasília. Como ninguém vai me arrumar isso, enfiem suas frases insolentes no rabo.
É isso. Sandices e diatribes para ler com vistas grossas e sob perspectivas. Como diz o Alex Castro, sejam grandes.
E até agosto. Agosto de Deus.






Ano passado, depois de quatro meses seguidos aqui no Rio, finalmente fui passar uns dias em casa. Sou do cafundó do interior das Minas Gerais, e preciso pegar três ônibus pra chegar lá. Levei um susto na primeira parada em Minas. Tinha esquecido como os mineiros são agradáveis e simpáticos. MUITO mais agradáveis e simpáticos do que os cariocas. Sério, foi mesmo um baque: percebi o quanto os cariocas são mal educados. Quando eu falo isso, o pessoal acha que é bairrismo. Pelo menos UM carioca concorda comigo.
E a Barra… santo deus. Você disse tudo.
Caramba, “Até São Paulo, até Brasília” pegou pesado…
Mas é verdade. No Rio a beleza natural é desculpa pra tudo. Como têm a beleza natural, os cariocas não estão nem aí pra cidade, que nos últimos 30 anos virou um monte de lixo. Em São Paulo (e Brasília que eu não conheço) o que existe é a cidade, ela precisa ser bem cuidada, porque não vai ter beleza natural que a salve.
Já Fortaleza, que conheci ano passado, tem cara de cidadezinha que virou metrópole em muito pouco tempo, vila de pescadores transformada em balneário de luxo da noite pro dia. Enfim, gente simples e humilde entremeada de mega-edifícios de luxo à beira mar. Achei muito estranho.
Em São Paulo em uma boa parte das ocasiões povo e governantes preocupam-se com a mesma coisa. Isto dá consciência de cidadania. Ambos preocupam-se com excesso de propaganda, excesso de velocidade no transito, locais públicos mínimos para cada bairro, acesso, indicações e serviços que funcionem ainda que seja uma megalópolis e tenha problemas como qualquer outro lugar grande tem.
No Rio parece não haver isso e é uma pena. Vivi 30 anos no Rio. Dá dó ver o Rio se desfigurar e o povo procurar o seu melhor lugar em meio a esta desfiguração. Hoje olho para o Rio e a cidade me parece indefesa perante as atitudes e (des)atitudes de seu povo e seus governantes. E isto parece um comportamento que já dura cerca de duas décadas. Uma dicotomia entre Povo e seus Governantes.
O Rio parece uma mata atlântica indefesa perante caçadores, madeireiros, posseiros e outros eiros da vida.
E o danado continua lindo. Mas até quando?
Ouvi dizer que o Eduardo Paes está querendo botar uns pingos nos “ís” e resgatar um pouco de senso cívico no Rio. É verdade? Seria ótimo.
E eu ainda sonho com um dia que os cariocas vão tremular bandeiras de seu estado, adorar azul e branco e ser realmente “proud to be a carioca”.
Piadas a parte, bacana é o que fazem muitos gaúchos estampando bandeirinhas adesivas das cores de seu estado em seus carros.
Respondendo ao Boyce, o que os gaúchos fazem não conta… eles são praticamente um outro país, “colônia” do Brasil, têm seu hino e seu próprio dia de independência, e são muito patriotas… Certa vez em Porto Alegre vi uma enorme bandeira do estado e pensei que o lugar fosse um quartel ou repartição pública, mas era uma simples loja de automóveis.
Quanto ao Rio, a falta de “patriotismo” se explica pelo fato da cidade historicamente nunca ter feito parte de nenhum estado e ter ficado com uma espécie de “crise de identidade” após ter deixado de ser capital federal. Ainda hoje muita gente defende a ideia de cidade-estado justamente por causa dessa falta de identificação.
Interessante ponto de vista, meu caro Rafael.
Embora o meu ponto sobre o vínculo com a terra dos gaúchos remetam ao que você chama de “quase um outro país” eu quis de facto exaltar este vínculo e como ele é, de alguma forma, salutar para o bem da cidade, estado ou país. Sei que lá, se dependesse deles, já seria declarada a “República dos Pampas” a muito tempo.
Ressucitar a Guanabara? ‘Não sei.
A crise de identidade pode ser um fator relevante mas o Rio de Janeiro, para mim, sofre de uma crise mais profunda que tem raízes muito longe. O Rio foi “Corte” e sempre separou classes. Nunca deu valor ao carioca (per se) e nesta praça a política sempre teve outros interesses do que os de seu povo daí o meu comentário original. Foi assim na colônia, na Corte do Rei, na República Velha, na Nova, na Ditadura e, por incrível que pareça ganhou forçado meio dos anos 80 pra cá.
Acho que se o Rio não investir descomunalmente em educação e cultura (não para turistas mas para seu povo) a cidade não sai dessa situação. Como diz o bom e velho aforisma da história: “Aqueles que desconhecem sua história tendem a repeti-la”.
Passei só pra deixar um “parabéns” e votos de tudo o que seja bom pra você!
Bjs!