Passei quase toda a minha vida morando em cidades de que não gosto. Em cada uma delas, alguma coisa me dizia: aqui não é minha casa. A Fortaleza dos ricos, bonitos e bem novinhos nunca me teve como filho. O Rio de Janeiro insolente e despudorado, terra da beleza e do prazer nunca me pareceu um lar. O isolamento de Friburgo e a distância de Brasília – e dos brasilienses – tampouco me serviu de alento.
Claro, haverá sempre os que, munidos de sua melhor psicologia de botequim me retruquem com a velha frase: quem não está bem consigo mesmo, não estará bem em lugar nenhum. Sim, é verdade, eu até acredito. Não obstante, mesmo que eu estivesse bem comigo mesmo, Rio, Fortaleza, Friburgo e Brasília não se tornariam cidades melhores e mais ao meu gosto. Ou seja, há mais do que só a auto estima em dia.
Me pergunto de vez em quando: onde é meu lugar? Seria na São Paulo dos feios e pálidos que eu encontraria os meus iguais? Aguentaria-lhe a falta de cor e os engarrafamentos? Curitiba, a fria, plástica e enevoada Curitiba… estaria lá a resposta ao meu desejo por tranquilidade e paz? Eu viveria bem na montanhosa BH, onde há amigos queridos, meninas bonitas, centenas de bares mas, ao contrário do que diz seu nome, nenhum horizonte, já que eu só entendo como horizonte aquele que é reto como a linha do mar mais distante? Conheço São Luiz, Natal, João Pessoa, Recife, todas de antigamente. Me pergunto se em algum desses litorais de agora eu encontraria paz para contemplar o mar que eu amo no silêncio que preciso.
Estive, vida afora, em muitas cidades para onde nem penso em voltar e que não o farei, se puder. Em outras – como Ouro Preto – eu amo passar apenas alguns dias. Outras, como Miami e Ft. Lauderdale, na Flórida, são oníricas e por isso mesmo, diáfanas, fluidas. Não parecem locais possíveis. E há muitos lugares que não conheço, ainda aqui no Brasil. Será que eu me daria bem na elétrica e solar Salvador? ou na pequena e acolhedora Maceió? Será que Porto Alegre me inspiraria os versos e humores quintânicos que tanto amo?
Me sinto triste porque olho pela janela e passo pelas ruas e percorro distâncias sem nunca encontrar o que procuro, por não saber ao certo o que procuro e mesmo por não saber se aquilo que procuro existe de fato. Onde estará a cidade em que desejo desembarcar, chegar de viagem, e onde estará a minha casinha branca de varanda, onde entrarei pela porta e soltarei no chão as malas e suspirarei o suspiro dos que chegaram, que chegaram no lugar último de uma verdadeira chegada? Haverá a cidade que sonho, onde erguerei a casa que sonho e onde viverei os meus dias, até que eles cheguem a termo?
Eu não tenho um nome, nem endereço, nem mapa que me leve a ela. Resta apontar o nariz para a direção que for. E ir.






Tenho certeza que BH te acolheria muito bem. Assim como me acolheu há 10 anos atrás.
http://www.piraodagua.net
Discordo da psicologia de botequim: acho q independente de estar bem consigo mesmo, há sempre um lugar que é “seu”. Como casamento que dá certo, este lugar te deixará “completo” na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.
Enquanto não achas, continue indo, na grande jornada de vida. Nada melhor que a busca. Da felicidade e do lugar where we deeply belong.
(By the way, preciso dizer que adorei o post?
)
oi..cheguei aqui pela twittada da malla…
se vc for como eu…
sua casa é seu caminho,
seu caminho é sua casa..
o seu coração pertence ao caminho e ao caminhar
bons passos pra nós
abraçao!
Believe-me
Aqui em Sampa é que não é. Pela cidade per se.
Talvez outras coisas compensem. Mas vamos lá 3 comentários:
1) Você escreve muito bem. Sem ser um mecanismo decomunicação formal e, em muitos dos casos, abusando do coloquial, consegue manter-se fiel ao bom português com muita propriedade. Cada dia melhor neste caótica tempo de linguagem internetada.
2) Vou eu usar do famoso achismo. Acho que qualquer lugar vai ser isso ou aquilo é um risco. É mais provável que vai ter coisas boas e coisas ruins. Alguns lugares são mais fáceis outros mais difíceis. Eu morei 30 anos no RJ e encarei vir a SP. Mesmo com alguma compensação financeira, tem coisas que o dinheiro não paga. Eu não trocaria o RJ por SP ( futuro do pretérito, mas troquei ). Eu criei outros hábitos, outras formas, atividades. Se você tentar encaixar a bola no quadrado, não ajuda em nada (Hole Hearted tm Extreme). Ou seja adaptar-se é uma arte e um aprendizado. (desde que voluntário e consciente) Se feito só porque é conveniente ou apenas porque é melhor é o cacete! Aí é burrice, estupidez total. Boçalidade. (É assim que se escreve?) Apesar de que mesmo consciente também pode ser burrice então taí, burrice consciente.
3) Toda suposição de um “q” de loucura. Supor que vai se achar um lugar que é “seu” como vi no outro comentário é uma coisa muito legal. A busca, o caminho, o gostar de amar (independente de quem), tudo isso é ótimo. Apenas a projeção de uma situação que, como não acontece no presente, é uma suposição de que algo aconteceria, isto, acho (olha o acho de novo humpf!) que tem uma coisa meio esquizofrênica, meio maioneggs. Na prática pode ser muuuito diferente. Ou the hole is very down under.
Mas o seu post é do car(v)alho, com a licença da mal palavra.
Henrique
Também cheguei aqui pela Malla. Lendo seu texto me lembrei de “As Cidades Invisíveis” do Italo Calvino. Num dos trechos ele diz: ” Você sabe melhor do que ninguém, sábio Kublai, que jamais se deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve.”
Um abraço,
Meu velho,
antes de tudo, uma correção. Salvador não é solar. Isto é uma invenção dos órgãos turísticos para enganar turistas, otários e quetais.
Soterópolis é uma das cidades brasileiras com maior indice pluviométrico do Brasil, com uma média anual superior a 1900 mm. Eu falo sério. Não é vadiagem.
Bom.
Noves fora isso, é minha cidade. Toda vez que chego de viagem neste besta e ainda bela província fico emocionado. De verdade. Os olhos ficam rasos d’àgua e fico comovido como o diabo com o cheiro de maresia. Não saberia viver em outro lugar.
Quanto à sua cidade dos sonhos, tente um local perdido na chapada diamantina chamado mucugê.
Obrigado, meu nobre Rodrigo. Sempre que penso em BH e no acolhimento dos mineiros, me vem você na lembrança, entre outros grandes amigos que merecem minha citação.
Obrigado à armada das “Lus” que escreveram. À Lúcia Malla, que quase sempre me leva às lágrimas quando aparece aqui, à Dra. Lu que me lembra o prazer que a imagem arquetípica das estradas me confere e à Lu Malheiros, que cita um dos meus livros preferidos nessa vida.
Obrigado pelo comentário, Henrique. Mais ainda pela assinatura nele.
E obrigado, “seo Françuel” por me brindar com esse humor delicioso, essas informações de grande caráter científico, à lembrança sutil de Elomar e Xangai e por me apresentar esta impressionante Mucugê que já está em minhas listas de lugares a conhecer.
Abraço a todos.
Também não sei a resposta, mas quando chegar lá, mande um postal.