Estou novamente atravessando o deserto. Não sei bem quando ele começou, nem quando terminará mas é fácil saber que estou nele. Não, os lábios não racham, a garganta não seca, o calor não abate. Meu deserto é de silêncio. O coração cala, a voz se esconde, os olhos somem no horizonte, na monotonia das cores. Por todo lado, fervilha a morte que não ouço, a barbárie que não enxergo, o inferno que sublimo. E eu sigo andando, carregando o único desejo de que o deserto termine logo e eu possa sentir novamente o que o silêncio das areias anestesiou na minha alma. Porque eu ando e tudo o que eu sinto é a dor de um choro que não vem, um rio que não deságua, um lago represado na garganta e preso no peito, aguardando o dia em que ele suplantará as barreiras e seguirá seu curso, arrastando o que encontrar pela frente, matando o deserto e lavando os olhos que então poderão ver, no último instante, a única coisa que é boa no deserto, que é ter de noite, o céu estrelado mais lindo do mundo.
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