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Archive for the ‘crônicas’ Category

Prece

Quero agradecer aos anjos pela noite de ontem. Por terem me soprado nos ouvidos que valia a pena deixar meu nome na lista de espera de um show pra lá de lotado, que teve a presença até mesmo de Caetano Veloso e entourage na platéia. E agradecer pela mesa que vagou, e pela chance de assistir a um show lindo, lindo, lindo de Roberta Sá, só de sambas do recôncavo – o novo CD dela promete muito. E agradecer mais que tudo pela chance de ver os olhos brilhando da minha mulher, que tão triste ficou por achar que tinha perdido o show que tanto queria ver.

E agradeço porque o Centro Cultural Carioca, onde aconteceu o show, foi um #megafail mas em nenhum momento a gente perdeu o bom humor, porque a companhia um do outro suplanta todos esses probleminhas pequenos.

E agradecer por, quase dez anos de casamento depois, ainda escutar da minha mulher que eu ainda tiro o fôlego dela. E que eu nunca fui um idiota como um cara que passou meia hora ao nosso lado, discutindo e pagando geral para uma menina linda porque ela cometeu o horrendo crime de dançar alguns minutos sem ele.

Agradeço por ter descoberto que eu não detesto samba. Eu só detesto cavaquinho. E isso muda muita coisa.

Ontem foi dia de Yemanjá, dia de lembrar que o mar tanto traz como leva. Ontem ele trouxe, trouxe muitas coisas e eu agradeço.

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Deserto

Estou novamente atravessando o deserto. Não sei bem quando ele começou, nem quando terminará mas é fácil saber que estou nele. Não, os lábios não racham, a garganta não seca, o calor não abate. Meu deserto é de silêncio. O coração cala, a voz se esconde, os olhos somem no horizonte, na monotonia das cores. Por todo lado, fervilha a morte que não ouço, a barbárie que não enxergo, o inferno que sublimo. E eu sigo andando, carregando o único desejo de que o deserto termine logo e eu possa sentir novamente o que o silêncio das areias anestesiou na minha alma. Porque eu ando e tudo o que eu sinto é a dor de um choro que não vem, um rio que não deságua, um lago represado na garganta e preso no peito, aguardando o dia em que ele suplantará as barreiras e seguirá seu curso, arrastando o que encontrar pela frente, matando o deserto e lavando os olhos que então poderão ver, no último instante, a única coisa que é boa no deserto, que é ter de noite, o céu estrelado mais lindo do mundo.

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Dolores

Minhas dores estão ali na sala, veja. São como os gatos sobre os pufes. Eles passam o dia por aí, dormitando. Às vezes acordam, comem, brincam e voltam a dormir. E ficam aí, para que eu me lembre deles de vez em quando, mesmo quando eu me ocupo da vida, quando estou brincando com as crianças, quando estou no trabalho, ou no trânsito, ou escutando aquela música antiga e então elas vêm e me pedem atenção, não me mordendo ou arranhando ou arrancando pedaços de minhas orelhas ou furando meus olhos. Elas vêm e bafejam em meu coração e respiram em meus olhos e enroscam-se em minhas pernas e deitam em meu colo e então eu não tenho como fazer mais nada a não ser parar, parar e esperar que elas se dêem por satisfeitas, alimentadas de minha angústia e de meu medo e então voltem aos pufes para dormitar. E assim são elas, entende? E não, não é simples mandá-las embora. Ora, afinal elas estão aí na minha vida, no meu peito e na minha alma, pelo mesmo motivo que os gatos estão aí, sobre os meus pufes, na minha sala, morando comigo e compartilhando de minha vida. E você sabe qual o motivo.

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“(Penso que a pobreza da filosofia e da literatura no Bananão se deve, em boa medida, à curiosa idéia de “vivência” comum à maioria dos brasileiros. Você ouve um habitante da Botocúndia falar em “viver!”, com exclamação, e sabe de imediato que esse verbo exclui completamente: a) observação; b) raciocínio indutivo e dedutivo; c) leitura. Todas essas coisas, para um brasileiro, são feitas fora da vida; très exotique, diria um francês do século 19 ajeitando seu monóculo. Claro, trata-se de uma noção infantil do que é a vida: criança é que não consegue ver nada -viver nada- sem pegar. Mesmo os sentidos se restringem ao tato e ao paladar. É por isso que o brasileiro acha que pegar a merda e pôr na boca é o único modo de “conhecê-la”. Transfira isso para a vida mental da nação -cacófato premeditado- e você entenderá por que boa parte dos nossos so-called escritores jamais saiu da fase anal.)”

Do velho Ruy Goiaba, republicação de uma republicação de 2005. Atualíssimo ainda, como podem perceber.

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Desliberdade

Revisitando meus textos antigos, achei este de fevereiro de 2003 jogado num canto. Não fui eu que escrevi. Foi a Alê Félix quando ela ainda era uma blogueira sem nome. Republico agora, nesta tarde em que eu alinhavo minhas ilusões na lona grosseira do tempo.

“O Fantasma da Liberdade

Os saudosistas acham que o melhor da vida mora na lembrança, os calculistas acham que os melhores dias virão e alguns já desistiram de pensar nessas coisas e jogaram suas vidas nas mãos de deus. É assim que se divide a humanidade. Esse papo de “carpe diem” é conversa pra boi dormir. Pouquíssimas pessoas vivem o momento presente. Viver o presente requer liberdade, coragem, desprendimento… Ninguém é livre preso às lembranças do passado e aos planos para o futuro, ninguém é livre se é preso aos laços de família, amizade e amor. Ninguém é livre com contas vencendo no fim do mês. Impossível viver o presente se você não tem coragem para não deixar que esses detalhes influenciem o seu dia. É fácil! Pergunte-se: Onde você gostaria de estar agora e fazendo o que? Se o seu pensamento levou você para bem longe desta cadeira, esqueça. A sua liberdade é uma ilusão.”

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Madrugada

Madrugada, esta de hoje, que já começa com ares de encerrada, cinza, em névoa aconchegada. A ti, hora de paz e silêncio, onde ninguém grita ou brada seus hinos e certezas, seus ódios e terrores, a ti entrego meus olhos cansados de acordar. A ti escrevo sem que saibam, um trecho que em breve esquecerei, pequena gota de orvalho caída em papel de mentira. Madrugada, perdida, ignorada, piada dos ébrios, salvação dos covardes, nêmesis dos notívagos, madrugada mãe de terno abraço, da sugestão do sol e da chuva que molha o vidro. Te encontro lânguido, mas é frio teu regaço. Madrugada cinzenta, sem cor, sem vontade, sem início e sem fim, companhia dos poetas, solitários, como este que  finge habitar em mim.

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A cidade dos sonhos.

Passei quase toda a minha vida morando em cidades de que não gosto. Em cada uma delas, alguma coisa me dizia: aqui não é minha casa. A Fortaleza dos ricos, bonitos e bem novinhos nunca me teve como filho. O Rio de Janeiro insolente e despudorado, terra da beleza e do prazer nunca me pareceu um lar. O isolamento de Friburgo e a distância de Brasília – e dos brasilienses – tampouco me serviu de alento.

Claro, haverá sempre os que, munidos de sua melhor psicologia de botequim me retruquem com a velha frase: quem não está bem consigo mesmo, não estará bem em lugar nenhum. Sim, é verdade, eu até acredito. Não obstante, mesmo que eu estivesse bem comigo mesmo, Rio, Fortaleza, Friburgo e Brasília não se tornariam cidades melhores e mais ao meu gosto. Ou seja, há mais do que só a auto estima em dia.

Me pergunto de vez em quando: onde é meu lugar? Seria na São Paulo dos feios e pálidos que eu encontraria os meus iguais? Aguentaria-lhe a falta de cor e os engarrafamentos? Curitiba, a fria, plástica e enevoada Curitiba… estaria lá a resposta ao meu desejo por tranquilidade e paz? Eu viveria bem na montanhosa BH, onde há amigos queridos, meninas bonitas, centenas de bares mas, ao contrário do que diz seu nome, nenhum horizonte, já que eu só entendo como horizonte aquele que é reto como a linha do mar mais distante? Conheço São Luiz, Natal, João Pessoa, Recife, todas de antigamente. Me pergunto se em algum desses litorais de agora eu encontraria paz para contemplar o mar que eu amo no silêncio que preciso.

Estive, vida afora, em muitas cidades para onde nem penso em voltar e que não o farei, se puder. Em outras – como Ouro Preto – eu amo passar apenas alguns dias.  Outras, como Miami e Ft. Lauderdale, na Flórida, são oníricas e por isso mesmo, diáfanas, fluidas. Não parecem locais possíveis. E há muitos lugares que não conheço, ainda aqui no Brasil. Será que eu me daria bem na elétrica e solar Salvador? ou na pequena e acolhedora Maceió? Será que Porto Alegre me inspiraria os versos e humores quintânicos que tanto amo?

Me sinto triste porque olho pela janela e passo pelas ruas e percorro distâncias sem nunca encontrar o que procuro, por não saber ao certo o que procuro e mesmo por não saber se aquilo que procuro existe de fato. Onde estará a cidade em que desejo desembarcar, chegar de viagem, e onde estará a minha casinha branca de varanda, onde entrarei pela porta e soltarei no chão as malas e suspirarei o suspiro dos que chegaram, que chegaram no lugar último de uma verdadeira chegada? Haverá a cidade que sonho, onde erguerei a casa que sonho e onde viverei os meus dias, até que eles cheguem a termo?

Eu não tenho um nome, nem endereço, nem mapa que me leve a ela. Resta apontar o nariz para a direção que for. E ir.

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